Bruno Belo, D.R. do Empreendedorismo e Competitividade dos Açores*

Atrair empresas e investimento para os Açores, e potenciar a região do ponto de vista tecnológico, é uma estratégia que a região autónoma tem vindo a construir nos últimos anos. Bruno Belo, Diretor Regional do Empreendedorismo e Competitividade dos Açores, explicou em entrevista ao Link To Leaders o que está a ser feito para que os Açores possam ser um agregador e um irradiador de tecnologia e de conhecimento para o mundo.

“Gostava que a médio prazo os Açores fossem vistos como aquele sítio que liga a Europa e os Estados Unidos, em que tecnologia e as empresas da área tecnológica se sentissem como que pressas aos dois continentes e a fazer a ligação entre os dois”. A explicação é de Bruno Belo, Diretor Regional do Empreendedorismo e Competitividade dos Açores (DREC), que acredita que o arquipélago tem mais atrativos além do lado turístico e que reúne condições de excelência para captar a atenção de empresas e investidores.

O que vos levou este ano ao Web Summit?
A nossa participação teve sobretudo duas grandes vertentes. Primeiro, tivemos 18 empresas que foram previamente sujeitas a um concurso, e que apresentaram as suas propostas. São, sobretudo, da área tecnológica, design gráfico, e que tentam, por um lado, a sua internacionalização – e nós queremos potenciar essa internacionalização -, mas também, por outro lado, um conjunto de relações comerciais que se estabelecem no evento.

Também estivemos com uma outra vertente que foi a captação de investimento externo. Naturalmente que estamos no meio de uma estratégia que se pretende que diversifique os setores de atividade económica. Sabemos quais são os setores de atividade tradicionais nos Açores, mas é necessário a sua diversificação e, sobretudo, na área tecnológica.

Os Açores possuem parques tecnológicos como o TERINOV [Parque de Ciência e Tecnologia da Ilha Terceira], ou o NONAGON [Parque de Ciência e Tecnologia de São Miguel], onde já existem empresas alojadas, mas naturalmente que há uma preocupação em captar novas empresas, novas áreas de negócio, novas entidades que possam também acrescentar valor à economia dos Açores. Com diversificação há um cluster que, todo ele, beneficia com a entrada de novas empresas.

“(…) temos um conjunto de instrumentos financeiros disponíveis para apoiar as empresas, quer na sua instalação quer na sua remodelação e qualificação”.

Quais os elementos diferenciadores da região?
Como elementos diferenciadores naquilo que são a captação de investimentos, uma posição geográfica muito atrativa em que estamos a duas horas de uma capital europeia, Lisboa, e a quatro horas de avião do centro da Europa, mas também a quatro horas de Boston. E isto faz dos Açores um ponto de convergência e o que se quer é que dos Açores possam ser essa tal plataforma entre a Europa e os Estados Unidos.

Por outro lado, temos também vantagens fiscais. Os Açores gozam de uma situação fiscal positiva até 30% relativamente ao Continente devido à Lei das Finanças Locais, e, neste momento, este limite está utilizado na totalidade. Ou seja, quem tiver sede nos Açores beneficia de uma redução de 30% em tudo o que é carga fiscal. Estou a falar das empresas, mas também dos colaboradores que nela trabalham.

Mas há outros aspetos. Temos um esquema de incentivos ao investimento que já é de anteriormente, mas que será um novo sistema de incentivos que terá início em 2023. Neste momento estamos a prepará-lo, estamos a concluir as suas regras e temos incentivos muito fortes que podem ser um elemento de atração. Designadamente apoios a fundo perdido e que poderão ir até 70% no seu limite máximo.

Os Açores são nove ilhas e há majorações que são atribuídas às ilhas economicamente mais frágeis. O propósito é criar uma coesão económica e social dentro da região. Há uma convergência da região em relação à média nacional. Naturalmente que a média nacional traça convergência com a média europeia e nós dentro dos Açores o que pretendemos também é eliminar, ou atenuar pelo menos, aquelas que são as assimetrias entre ilhas e nivelar as ilhas de uma forma económica e naturalmente social.

De uma forma macro, serão essas as grandes ideias do plano para o próximo ano. Aliás, o sistema de incentivos vai até 2027 e, portanto, temos um conjunto de instrumentos financeiros disponíveis para apoiar as empresas, quer na sua instalação quer na sua remodelação e qualificação.

Há claramente uma estratégia nesse novo quadro virada para a diversificação económica, naturalmente sem prejuízo dos setores tradicionais da economia, mas uma viragem para aquilo que são as novas tecnologias as novas empresas. Tudo aquilo que seja inovador ganha alguma vantagem naquilo que é o mérito a atribuir a cada projeto de investimento.

Quantas empresas já conseguiram atrair?
As empresas vão chegando. Algumas fixam-se outras acabam por não conseguir porque há questões que nos ultrapassam que não são suficientes para se fixarem. Mas quer o TERINOV quer o NONAGON já têm um número bastante significativo de empresas que se fixaram, que se alojaram nestes parques tecnológicos.

Também há aqui a ideia de outras empresas criarem clusters para elas próprias serem incubadoras e geradoras de atração de outras empresas para os Açores. Isto ultrapassa um bocado aquilo que é o trabalho público e também tem de ser potenciado pela iniciativa privada. Entendemos que nós não deveremos ser líderes, mas parceiros e, obviamente, chamar todas as empresas a participar no processo, a serem parceiras daquilo que é a administração pública e daquilo que é a implementação das políticas públicas. Porque as políticas públicas só fazem sentido se forem viradas para essas empresas e entidades, para essas áreas de negócio.

Nesse sentido, o Governo Regional tem alguma parceria com empresas privadas?
Nós não temos de fazer aquilo que a empresas têm de fazer. Nós temos de ajudar a empresa a criar condições para que esta se instale, para que chegue aos Açores e tenha condições para se instalar. O que quer que falte nós fazemos para que a empresa fique, para que se desenvolva nos Açores.

Também sabemos que esse é um processo dinâmico e que ao longo dos tempos vão surgindo novas necessidades. É um processo evolutivo e é importante estarmos despertos para aquilo que as novas empresas precisam. Podemos estar a pensar que há um conjunto de elementos que são suficientes e não o serem, ou até serem suficientes e não se adaptarem àquela empresa ou àquela área de negócio

Tem a ver com a especificidade dos próprios negócios…
Exatamente. E isto cada vez mais é mais específico, cada negócio é um negócio. Vale também pela diferenciação. E se há área de negócio em que a diferenciação é claramente uma chave de sucesso é a tecnológica, em que cada um vale por si. Mas vale também, ou sobretudo, pela diferenciação que apresenta, pelo grau de inovação e por aquilo que é e capaz de aportar às empresas.

“(…) os Açores estão a ser descobertos em várias vertentes, também na instalação de empresas da área tecnológica (…)”

Enquanto Governo Regional, quais têm sido os principais desafios que têm enfrentado para implementar toda esta dinâmica entre aquilo que é a regulamentação para as empresas e aquilo que são as necessidades das empresas?
Temos consciência que esse é um problema que não é novo, é um problema histórico da nossa localização geográfica que, por vezes, foi um entrave. Para além de termos hoje uma procura diferente pelos Açores e de percebermos que os Açores estão a ser descobertos em várias vertentes, também na instalação de empresas da área tecnológica, ainda há um trabalho a fazer-se nesse campo, na notoriedade, naquilo que pode ser diferenciador. Não só temos segurança, como temos tranquilidade como poucos sítios no mundo, temos capacidade acolhedora. Portanto, há aqui valores que não são propriamente mensuráveis, mas que são percecionados e que são uma vantagem competitiva.

Os grandes problemas são claramente a distância, mas também falta chegarmos aos centros dessa área de negócio e dizer “nós estamos aqui, temos condições boas, por favor venham experimentar, venham ver como é viver e trabalhar nos Açores”.

Hoje do ponto vista infraestrutural as coisas estão conseguidas, esse trabalho está feito, mas falta a outra parte. No outro dia, em conversa com investidores que querem e vão investir nos Açores, um dos elementos que eles valorizavam era o fuso horário. É um elemento que nós à partida não valorizamos. E porquê? Porque estamos a uma hora de uma capital europeia, a duas horas do fuso horário do centro da Europa e quatro horas dos Estados Unidos. Não é só a distância física, mas também a distância temporal e isso é claramente uma vantagem e em que normalmente não pensamos.

Temos de chegar ao pé do nosso potencial investidor e convidá-lo a ver, a ir visitar, a perceber e vivenciar aquilo que poderá ser um novo sítio, um novo ambiente de trabalho. Penso que os Açores poderão ter um papel muito importante a dizer sobre isso.

“O nosso país, como se calhar a maior parte, ainda está muito agarrado aquilo que são os setores tradicionais de atividade, com regras laborais tradicionais (…)”.

E nessa função de promotor daquilo que os Açores têm de melhor onde estão divulgar mais a região? Há algum país, alguma região, que seja o foco da vossa atenção?
Claramente Europa e Estados Unidos. E sobretudo Portugal continental. Começamos a ser procurados pela Alemanha, pela França, por países da Europa Central, países com climas diferentes e para quem o nosso clima também pode ser uma vantagem competitiva.

Os EUA também nos começam a procurar porque o estar nos Açores os torna mais próximos da Europa. Há um outro aspeto que é uma vantagem para esses países com melhores rendimentos salariais. A nossa meta salarial é substancialmente inferior à dos EUA e do centro da Europa e eles com uma diminuição significativa de custos conseguem ter uma produção exatamente igual ou até superior à que têm nos seus países.

Há ainda um aspeto fundamental e que é preciso ser feito, e que não depende da região, mas do país, que é uma revisão laboral. O nosso país, como se calhar a maior parte, ainda está muito agarrado aquilo que são os setores tradicionais de atividade, com regras laborais tradicionais, e temos de perceber que mundo está a mudar muito, e muito depressa, e aquele que é o conceito laboral que está associado às novas tecnologias e às empresas desta área não tem nada a ver com aquilo que é atividade normal laboral.

Tem de haver uma flexibilidade diferente por forma a que essa questão não seja um entrave à chegada de novos colaboradores. O mundo está a mudar a uma velocidade muito grande. Acho que a pandemia foi um elemento acelerador dessa mudança e desde logo numa coisa que é óbvia: hoje conseguimos fazer coisas online a que se calhar só chegaríamos daqui a 10 ou 15 anos. Este é um elemento claro de que houve uma aceleração de toda a economia, de toda a filosofa laboral. As empresas pensam de forma diferente.

Há empresas que no meio das dificuldades transformaram isso em oportunidades. E naturalmente que os países, e aquilo que é a legislação laboral, têm de se adaptar para responder a esses novos desafios. E não pode demorar porque se demorar pode ser um entrave à evolução natural das coisas e, eventualmente, levar as empresas para outros mercados onde isso seja facilitado.

Hoje ninguém espera e os países estão todos na mesma luta. Quem quer investir tem imensas oportunidades de investimento, e nós enquanto país, enquanto Região Autónoma temos de estar atentos e ter as condições necessárias e suficientes para, no momento da decisão do investimento, ele se dirija à nossa região e ao nosso país.

Além do TERINOV e do NONAGOM algum outro parque tecnológico em perspetiva?
Neste momento está a ser construída a rede de incubadoras da Região Autónoma dos Açores e naturalmente que todas as ilhas vão ter incubadoras de empresas diferenciadas e com dimensões diferentes.

Para já?
Parte das ilhas já têm. Acho que só três ou quatro ilhas é que não têm, mas rapidamente vão ter. Far-se-á a rede regional de incubadoras que depois vão trabalhar em parceria com o TERINOV e o NONAGOM porque, obviamente, estes dois parques são os mais robustos, têm outra dimensão e outra atratividade.

Cada vez mais sinto que aqueles sítios mais recondidos, de maior dificuldade de acesso, começam a ser menos problemáticos, começam a ser mais procurados. Poderão ainda não o ser na dimensão que nós queremos, mas progressivamente as coisas vão acontecer. E acho que um dos elementos que tem favorecido a notoriedade para isso tem sido o turismo. Isso pode demonstrar que as áreas de atividade económica não vivem sozinhas, não vivem desligadas umas das outras e se conseguirmos completá-las, com tudo o que possa vir a acontecer a nível das novas tecnologias, acho que temos aqui um bom mix económico e bem diferenciador.

As áreas de atividade devem potenciar-se umas às outras?
Acho que sim. E isso tem de ser claramente um dos grandes desígnios da região, os desafios da região. Não podemos olhar a região apenas como um caminho. Eles têm de ser vários, têm de ser complementares. E têm de ajudar-se mutuamente. Desde logo as ilhas são diferentes. Não podemos fazer tudo igual em todas as ilhas, porque não faz sentido.

Nos primeiros incentivos também temos majorações para as ilhas mais pequenas, mas vamos criar a possibilidade de haver ilhas que tenham incentivos para determinadas tipologias de negócio e outras que não tenham. Há aqui uma discriminação positiva também nas tipologias e nas áreas de negócio incentivadas. Quase uma especialização. O negócio é cada vez mais específico, é feito à medida de cada investidor, à medida de cada empresa, com as expetativas que cada um formou.

Tendo em atenção as circunstâncias do arquipélago, há alguma área de negócio em que veja um maior potencial de crescimento, que seja especialmente vocacionadas para as ilhas ou isso não se coloca?
Claro que sim. Há um aspeto fundamental que é a agricultura. Neste momento já há uma empresa que está a testar tecnologia de aproveitamento dos rejeitos que vêm do setor da carne para produzir adubos biológicos e orgânicos para a agricultura.

Essa é uma área que uma vez conseguida, e uma vez que os propósitos sejam atingidos, tem uma complementaridade com o setor primário de sustentabilidade ambiental, de sustentabilidade económica promovendo aquilo que é a economia circular. E junta-se um conjunto de elementos à sua volta, criando uma cadeia de valor muito interessante, alicerçada num setor que é tradicional, que é agricultura, mas também nas novas tecnologias e no desenvolvimento de novos produtos que podem reforçar a agricultura.

A saúde também poderá vir a ser uma área estratégica atendendo a que já existe um hospital privado na região, o Hospital Internacional dos Açores, e que pretende estabelecer parcerias com entidades terceiras sediadas fora dos Açores e do país, e que parece-me que vai potenciar sinergias e conhecimento entre entidades.

“Mais do que vender bens é vender serviços, é vender aquilo que nós criamos nos Açores, criando riqueza (…)”.

Falou na vontade de levar start-ups para os Açores. E a internacionalização das que já lá estão? Já há casos de sucesso formados nos Açores e que estejam a ajudar a internacionalizar?
Sem prejuízo de me estar a enganar há uma empresa açoriana que já tem dois jogos internacionalizados, a Redcatpig. É um exemplo de que as coisas podem chegar longe e de que os Açores podem vender conhecimento e tecnologia.

Esse é que é o grande investimento no futuro. Mais do que vender bens é vender serviços, é vender aquilo que nós criamos nos Açores, criando riqueza, ficando uma fatia boa de todo o investimento na região e potenciando a região também desse ponto de vista tecnológico. É um início apenas e há um trabalho enorme a fazer-se, mas é esse o objetivo e é com esse propósito que queremos levar isto por diante.

Como é a relação entre o Governo Regional e o Governo central no sentido do apoio, da ajuda financeira?
As relações institucionais são boas. Naturalmente que há momentos em que podem ser um bocadinho mais difíceis, não por uma razão política, mas por uma razão conjuntural. Os problemas com que às vezes o Governo da república se debate, quer do ponto de vista orçamental, quer de outra natureza, podem ou não criar aqui alguma maior dificuldade. Mas de uma maneira geral as relações entre Governos é boa. Aliás, penso que os Açores têm beneficiado daquilo que é a solidariedade nacional. Mas também Portugal beneficia muito com aquilo que é a Região Autónoma dos Açores e com a dimensão atlântica que os Açores transmitem e dão ao país. Acho que estamos condenados a termos que nos dar bem. E isto é bom. É uma boa condenação.

Acho que essa relação também deve e pode ser potenciada e aprofundada até porque aquilo que é bom para a região e a faça mexer, também faz o país ganhar. Sentimos que há claramente uma solidariedade e uma bondade de estar ao lado dos Açores.

“Gostava que a médio prazo os Açores fossem vistos como aquele sítio que liga a Europa e os Estados Unidos (…)”

Tendo em atenção todos os projetos que estão em cima da mesa e o que está a ser delineado para os próximos anos, como é que gostava que o mundo, o ecossistema internacional de investidores, de start-ups, olhasse para os Açores daqui a dois anos?
Gostava que a médio prazo os Açores fossem vistos como aquele sítio que liga a Europa e os Estados Unidos, em que tecnologia e as empresas da área tecnológica se sentissem como que pressas aos dois continentes e a fazer a ligação entre os dois. E que os Açores hoje, de forma tecnológica, fosse aquele sítio onde se amarravam os cabos que foram o início das comunicações intercontinentais.

Numa era moderna, ser o ponto de amarração das tecnologias, ser o ponto de convergência de um conjunto de empresas e de conhecimentos de tecnologias e que, obviamente, isso fosse também o ponto de difusão para o mundo. Acho que os Açores seriam únicos para todas essas pessoas. Era isso que eu gostava que um dia acontecesse, mantendo aquilo que hoje são os grandes ativos da natureza, da segurança, da tranquilidade, do melhor sítio para qualquer família criar os seus filhos. Que não se perca essa vertente e essa essência amigável e familiar que os Açores têm, mas com um plus de ser um agregador e um irradiador de tecnologia e de conhecimento para o mundo.

*Diretor Regional do Empreendedorismo e Competitividade dos Açores

 

 

 

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