O historiador amador e professor da Universidade do Porto, Rui Moura, analisa o triunfo para humanidade que significou o primeiro voo espacial tripulado que levou o primeiro humano, o cosmonauta Iuri Gagarin, para o espaço.

Rui Moura, historiador amador da área do espaço que já organizou exposições e conferências na matéria e professor da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP) explica ao Dinheiro Vivo a importância científica, filosófica e económica do missão Vostok 1, que levou há precisamente 60 anos o cosmonauta russo Iuri Gagarine para o primeiro voo espacial tripulado.

O evento histórico aconteceu às 06h07 (5h07 em Portugal Continental] do dia 12 de abril de 1961, há 60 anos, numa missão em que existiam 50% de hipóteses de insucesso - morte do cosmonauta (Gagarine viria a morrer sete anos depois num acidente de aviação ao comando de um MIG. Foram 108 minutos históricos, com a Vostok a chegar a 327 quilómetros de altitude, conseguindo completar uma órbita em torno da Terra.

Segue então o depoimento de Rui Moura.

Ganhos científicos, técnicos e filosóficos


"De uma forma pessoal o dia 12 de Abril tem um enorme significado pois a concretização da presença da humanidade no espaço é algo que tem diversas importâncias científicas técnicas e até filosóficas. Se o lançamento do Sputnik 1, em 1957, permitiu provar que era possível orbitar a Terra e com isso estabelecer um ponto de vista e comunicação a partir do espaço, a missão Vostok 1 (Leste 1) com Iuri Gagarine a bordo permitiu demonstrar que um ser humano poderia sobreviver e operar um veículo fora da atmosfera Terrestre. Enviar uma máquina ou um Ser Humano poderão parecer o mesmo, em termos de cumprimento de objetivos técnico-científicos mas eu acho que a perspetiva humana é algo que traz testemunho. Ninguém faz homenagens ou receções de estado a satélites ou sondas espaciais. O testemunho humano é incomparavelmente valioso, sempre mais rico, flexível e mais adaptável do que qualquer sonda ou robô que se envie ao Espaço."

Magia ou não, há e haverá certamente mais oportunidades e modelos de negócio neste sector. Para já, e passados apenas 60 anos, estamos ainda a aprender como viver no espaço
Competição saudável com EUA
"Do ponto de vista económico-político a missão de Iuri Gagarine permitiu cimentar uma certa credibilidade sobre o modelo de sociedade que a URSS queria demonstrar. Colocar um ser humano no espaço constituía uma das formas de demonstração do valor dos modelos de educação, investigação bem como sobre a forma como essas componentes se articulavam de forma ágil e pragmática com a indústria. Isto tanto era verdade para a União Soviética como para os EUA e isso gerou uma certa competição, saudável, para demonstrar a supremacia desses modelos.

Os EUA posteriormente elevaram ainda mais a fasquia ao conseguirem efetuar as missões à Lua [missões Apollo, em 1969] e mais tarde com as missões do Space Shuttle. Colocar um astronauta ou cosmonauta no espaço, há 60 anos ou hoje, não é tarefa fácil. As frases "Space isn't easy" ou "É necessário cometer 65.000 erros antes de se estar qualificado para construir um foguetão" (de von Braun) são frequentemente usadas nos EUA e entre a comunidade e indústria.

Ainda hoje a indústria privada continua a ver oportunidades sobre a colocação de pessoas no espaço e isso está patente nas intenções de empresas como a SpaceX, Virgin Galactic, Blue Origin ou Axiom Space. No que toca ao patrão da SpaceX e Tesla, Elon Musk a concretização da colocação de tripulações em órbita certamente o inspirou proferir uma frase igualmente relevante da dificuldade evocada: "Engineering is magic, or at least the closest thing to magic that exists in the real world" ("A engenharia é magia, ou pelo menos a coisa mais parecida no mundo real").

Magia ou não, há e haverá certamente mais oportunidades e modelos de negócio neste setor. Para já, e passados apenas 60 anos, estamos ainda a aprender como viver no espaço."

 

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