Várias companhias aéreas têm anunciado o lançamento de rotas para as ilhas açorianas a partir de vários pontos, nomeadamente da Europa. Secretário regional do Turismo mostra-se prudente quanto ao futuro no curto prazo, mas também não esconde que, apesar dos ventos contrários da pandemia, há um motivo forte de esperança. "Há algo que não se perdeu e até poderá ter-se fortalecido, que é a proposta de valor do destino."

uando turismo começava a conseguir respirar de alívio, a pandemia voltou a trocar as voltas, com o surgimento de uma nova variante, que se propaga com mais rapidez do que as anteriores, e que levou vários governos a acelerar a introdução de medidas restritivas numa tentativa de ganhar tempo para perceber a nova realidade. Os Açores, tal como as outras regiões, foram apanhados nesta encruzilhada no curto prazo. Mas a verdade é que desde meados de 2021 que várias companhias aéreas têm vindo a anunciar o lançamento de rotas internacionais para os Açores, o que deverá dar um impulso ao turismo nos próximos anos.

Mário Mota Borges, secretário regional dos Transportes, Turismo e Energia dos Açores, não esconde que a "paragem a fundo devido à covid-19 deu-se em todo o mundo e, de uma forma ou de outra, todos os destinos turísticos estão a lutar ainda, naturalmente, para recuperar". No caso dos "Açores, a situação é um pouco diferente porque 2019 foi o melhor ano de sempre do setor, numa trajetória de grande crescimento dos últimos anos, embora ainda não estivéssemos numa fase de consolidação plena. As expectativas para 2020 eram muito positivas e de superação desses números", nota em declarações ao Dinheiro Vivo, acrescentando que "como é natural, esta inesperada paragem, além de ter efeitos profundos nas contas das empresas, afetou o estado anímico de quem estava a recuperar, a investir e a perspetivar um ano sem precedentes".

Os dados estatísticos mostram uma evolução consistente do turismo nos Açores, com uma clara entrada de oxigénio com a liberalização do espaço aéreo, que permitiu, por exemplo, a entrada da companhia aérea low-cost Ryanair nesse mercado. Para se ter uma ideia, a região autónoma em 2013 contou - segundo dados do INE - com pouco mais de 345 mil hóspedes e 1,1 milhões de dormidas. Dois anos depois, quando o espaço aéreo foi liberalizado, os Açores fecharam com 444 mil hóspedes e 1,3 milhões de dormidas. Em 2018, foram mais de 718 mil hóspedes e 2,1 milhões de dormidas e 771 mil hóspedes, em 2019, e mais de 2,2 milhões de dormidas. A travagem provocada pela pandemia é clara. Em 2020, foram "só" pouco mais de 238 mil hóspedes e 654 mil dormidas. Os dados de 2021 vão apenas até outubro e, em termos de hóspedes, os Açores captaram mais de 423 mil pessoas e mais de 1,2 milhões de dormidas.

"Os Açores, nos últimos meses, têm recuperado de uma forma mais intensa. Parece-me que os atributos únicos que a Região possui "casam" muito bem com algumas das novas tendências de procura. A qualidade ambiental, a biodiversidade, a riqueza cultural e as experiências orgânicas e genuínas que proporcionamos aos que nos visitam fazem dos Açores um destino único", salienta Jorge Aguiar, administrador executivo da Bensaude Turismo, cadeia hoteleira que conta com sete unidades hoteleiras nos Açores, espalhados por três ilhas.

A partir do próximo verão, a British Airways vai ligar Londres a duas ilhas açorianas: São Miguel e Terceira. A norte-americana United anunciou que vai passar a ligar Ponta Delgada a Nova Iorque a partir também do próximo verão - tal como a Azores Airlines. Por outro lado, a low-cost francesa Transavia prepara-se para ligar Paris a Ponta Delgada a partir do próximo verão, bem como o Porto a Ponta Delgada. Em outubro passado, Nicolas Hénin, diretor comercial da low-cost da Air France-KLM, explicava ao Dinheiro Vivo que ligação de São Miguel à capital francesa "era algo que estávamos a analisar já há algum tempo". E dado que o mercado gaulês, mesmo antes da pandemia já tinha apetite pelo turismo de natureza, a companhia está convencida que os Açores são um "dos destinos emergentes de lazer que vão crescer no futuro".

O líder dos hotéis Bensaude alinha numa visão semelhante. "As companhias aéreas de referência, como a British Airways, Lufthansa, United Airlines, também estão a perceber este movimento de procura [por turismo de natureza] e, consequentemente, a trabalhar para estabelecer mais ligações com os Açores. O reforço da conectividade que se está a verificar é muito importante para o desenvolvimento e valorização deste setor de atividade".

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Com nove ilhas, o arquipélago dos Açores conta com muita diversidade de fauna, flora e paisagens. Sendo também um exemplo de sustentabilidade. "Há algo que não se perdeu [com a pandemia] e até se poderá ter fortalecido, que é a proposta de valor do destino Açores. Nunca é demais mencionar que os Açores são a primeira região arquipelágica certificada oficialmente como Destino Turístico Sustentável, de acordo com os exigentes critérios do Global Sustainable Tourism Council. Curiosamente, na retoma do setor turístico, no paradigma pós-pandemia, uma das maiores e mais profundas tendências é o turismo sustentável", acrescenta, por sua vez, o secretário regional açoriano.

Piscar o olho aos estrangeiros

O interesse das companhias aéreas dá sinais de que os Açores são cada vez mais o exemplo de um turismo procurado pelos estrangeiros. Os dados estatísticos mostram que os residentes em Portugal representam uma fatia importante de turistas nos Açores, mas não são os únicos. Para se ter uma ideia, dos 1,1 milhões de dormidas registadas nos Açores em 2013, 716 mil foram de não residentes, ou seja, estrangeiros. Em 2015, do total de 1,3 milhões de dormidas, 783 mil foram de não residentes. Mais recentemente, em 2019, quando a região contou com 2,2 milhões de dormidas, 1,2 milhões foram de estrangeiros.

"A partir de 2015, ano da liberalização do transporte aéreo entre os Açores e o continente português, assistiu-se a uma grande evolução do turismo na região. Em Lisboa [onde têm um hotel], também tivemos bons resultados, fruto da dinâmica daquela cidade. O período entre 2015 e 2019 foi, de facto, muito interessante. A partir de março de 2020, a pandemia por covid-19 teve um impacto negativo brutal nesta atividade, tendência que parece estar a inverter-se, com os Açores a apresentarem uma boa recuperação na época alta deste ano. Os clientes nacionais são os que mais procuram a região, mas os Açores são tradicionalmente muito procurados pelos mercados alemão, inglês e, mais recentemente, americano e francês", adianta Jorge Aguiar.

A pandemia e a sua evolução são um foco de incerteza para o setor do turismo à escala global. Ainda assim, o interesse das companhias aéreas é claro, embora não seja possível prever o que é que isso significará em termos de dormidas, receitas e mesmo desenvolvimento do turismo na Região Autónoma dos Açores. O responsável dos hotéis Bensaude questionado, defende, uma aposta ainda maior no mercado da América do Norte e da Europa, em países como Alemanha, França, Reino Unido e Suíça - mercados que podem ser considerados como maduros e com apetência para destinos ligados à sustentabilidade e contacto com a natureza. Mas também com o mercado nacional.

O que falta aos Açores?

Os Açores são uma região insular e que está, por isso, muito dependente das ligações aéreas. Inquirido sobre o que precisa a região para crescer mais ao nível turístico, o hoteleiro não tem dúvidas de que a primeira missão é o "reequilíbrio" e depois mais ligações aéreas.

"Todo o setor, devido à pandemia, tem que se reequilibrar e isso aplica-se às várias atividades que constituem a cadeia de valor do turismo. Nos últimos anos, temos assistido a uma inegável melhoria do nosso produto turístico, com a renovação e o reposicionamento de unidades hoteleiras já existentes, mas também com o surgimento de novas unidades, de pequena dimensão, mas com qualidade e diferenciadas. A oferta gastronómica tem igualmente evoluído e é um caminho em que temos de persistir. No campo da oferta cultural e da animação há também margem de progressão. Ponto fulcral para a sustentabilidade do setor é a redução da sazonalidade e, para isso, muito contribuirá a conectividade aérea que, progressivamente, se está a tentar incrementar", considerou.

FONTE: DINHEIRO VIVO

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