Milhares de cartas trocadas entre combatentes durante a guerra do Ultramar e os seus entes queridos contêm declarações de "amores sofridos", relatos de mortes ou ainda trivialidades que ajudavam os portugueses a suportar um conflito imposto pela ditadura.

"Cartas de Amor e de Dor - Recordações Íntimas e poderosas do Ultramar" (ed. Desassossego) é o mais recente livro, que chegou hoje às bancas, da jornalista Marta Martins Silva que, em cerca de 320 páginas, enquadra e retrata algumas das milhares de cartas e aerogramas trocados entre combatentes na guerra colonial e quem ficava por Portugal, entre 1961 e 1975.

Depois de ter escrito, em 2020, outro livro sobre o tema (Madrinhas de Guerra -- A correspondência dos soldados portugueses durante a Guerra do Ultramar), a autora confessa, em declarações à Lusa, que começou a perceber "que se havia cartas de madrinhas e afilhados, haveria todo um espólio de afetos trocados durante a guerra que seria interessante abordar".

O prefácio, da autoria do militar de Abril Pedro de Pezarat Correia, define-o como "um livro focado no drama humano da guerra" e a guerra "na primeira pessoa".

Na perspetiva da autora, o conflito durante muito tempo foi tratado "como uma coisa meramente bélica: o número de operações, as operações mais importantes, o número de mortos, de feridos, onde aconteceu tal operação, quantos helicópteros é que foram, que tipo de armas foram usadas... mas a guerra é um acontecimento altamente transformador para uma sociedade e vive muitos das emoções".

Entre os capítulos constam "cartas de amor", divididas entre "as mães e os pais", "as namoradas", "as mulheres", "as madrinhas", mas também as de dor, com relatos de morte e luto.

Apesar de alguns ex-combatentes terem queimado as cartas dessa época, "porque queimar as cartas era queimar o sofrimento, queimar o passado", as que chegaram às mãos da autora "mostram o país dos anos 60 e 70", nomeadamente "o tipo de linguagem" ou as preocupações da altura, como por exemplo, a agricultura de subsistência, com soldados no meio do conflito preocupados com "o laranjal" ou "o gado" que ficou em Portugal.

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Marta Silva adianta que as referências políticas eram escassas, surgindo nas cartas outros temas, como o Festival da Canção ou "trivialidades" do dia-a-dia.

"A trivialidade já era importante, porque ajudava-os a afastar-se do tema guerra. Muitos deles acabavam por não falar da guerra nas cartas para poupar os familiares -- então às mães ninguém contava nada, ninguém disparava nenhum tiro, os sítios onde estavam eram sempre os mais calmos do mundo, só iam à praia, ao cinema, para as mães isso é muitíssimo evidente", apontou.

Se no início do conflito colonial existia "um empolgamento à volta da guerra", até 1975 as cartas, de acordo com a autora, vão abordando cada vez menos a guerra começando a denotar-se "uma sensação de injustiça".

Cartas e aerogramas que eram distribuídos pelo Serviço Postal Militar, ao qual Marta Silva dedica todo um capítulo no seu livro, considerando que este foi "muito eficiente" pela forma como distribuía milhares de cartas todos os dias entre os sítios mais recônditos.

"Abrir a carta de alguém é sempre uma coisa muito íntima e eu senti isso sempre que me punham estas cartas nas mãos", disse a autora, confessando que se emocionou com alguns dos relatos que foi lendo.

Entre as histórias que preenchem este livro, está a de Amando Roseiro, cuja mãe "morreu muito cedo" e que foi criado pela madrasta com quem trocava muitas cartas.

"E a dada altura interrompe-se este fluxo de cartas, ele recebe uma carta do pai a dizer que a madrasta morreu. Ou seja, a mãe dele morreu. E na carta anterior ela de facto tinha dito que andava com umas dores de estômago que não valorizou (...). E isto é muito forte porque ele perdeu a mãe duas vezes e esta mãe perdeu sem se poder despedir dela. São lutos difíceis de fazer", apontou.

Outro relato é o de António Graça de Abreu, que escrevia muito para a mulher e a dada altura diz numa carta: "Ao alvorecer, bombardeámos aquela pobre gente, depois a partir do fim da manhã tudo fizemos para os tratar, para lhes salvar as vidas, os portugueses têm bom coração".

"O António está a dizer que mataram pessoas, o inimigo como eles tinham que chamar, mas depois trataram deles porque os portugueses matavam ali para não morrer, eles não tinham interesse em matar ninguém , eles cumpriam ordens, mas eram ordens que lhes custavam. Muitos ainda sonham com isto diariamente", acrescentou a autora.

Marta Silva destaca ainda o testemunho de Fátima, que perdeu o marido na guerra, com um bebé "que nunca conheceu o pai" e que não conseguiu reconstituir a sua vida depois deste amor.

Na atualidade, a autora considera que os ex-combatentes "têm ficado esquecidos pelos sucessivos governantes da democracia, porque toda a gente quis apagar a guerra colonial assim que ela terminou".

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