
Doce Lar, um nome que, aos poucos, foi entrando no vocabulário da Ilha Terceira. Uma jovem empresa prestadora de serviços, com especial vocação, para o apoio dos mais idosos em todas as frentes.
Rodrigo Maia da Silva, proprietário, nesta entrevista fala do percurso de uma empresa que quer sedimentar a sua estrutura para, depois, em bases sólidas, poder estender-se a outras ilhas dos Açores.
Como surgiu a ideia de avançar com esta empresa de prestação de serviços?
A ideia surgiu em Janeiro de 2016 por necessidade familiar. Um familiar meu ficou doente há uns anos, e com o tempo, a situação foi-se agravando e em janeiro do ano passado ficou acamado e portanto completamente dependente de cuidados de terceiros. Nós procuramos o que é que havia na Terceira e reparámos que havia uma grande lacuna no mercado. Só havia uma empresa neste ramo, que não era de todo aquilo que nós procurávamos e havia a Santa Casa que só faz a parte da higiene pessoal, não faz um acompanhamento prolongado. Assim reunimos uma equipa e profissionais de saúde e em julho de 2016 criámos a Doce Lar.
Que serviços têm para oferecer aos clientes?
Nós trabalhamos essencialmente em três zonas distintas. O apoio domiciliário, que é a nossa maior área de atuação. Aqui vai desde os cuidados familiares, como ir às compras, à farmácia, temos serviço de alerta para refeições e medicamentos, ou pagamentos de contas de famílias que por algum motivo já não conseguem fazê-lo. Temos a parte dos cuidados pessoais, a parte da higiene pessoal, do planeamento das refeições, da alimentação, da imagem pessoal, e aqui também entra a parte da enfermagem, com a monitorização do estado de saúde, com a elaboração de planos de cuidados, oferecemos todos os meses uma consulta de enfermagem aos nossos utentes, isto dentro do apoio domiciliário. Depois temos dois ramos distintos, que são a parte das explicações ao domicílio, em que temos uma rede de prestadores de serviços, que vai desde o 1ª ao 12ª ano e que presta explicações a todos os anos em casa das pessoas. O nosso terceiro ramo de atividade tem a ver com a formação. Nós damos formações em áreas distintas, não só aos nossos funcionários ao longo do ano, como a qualquer pessoa que queira fazer essas formações. Formações essas que vão desde primeiros socorros, suporte básico de vida, terapia da fala, portanto o que nós fazemos aqui no fundo é formação com os nossos profissionais de saúde.
A adesão por parte dos clientes tem sido igual em todas as áreas oferecidas? Ou há maior apetência por uma ou por outra?
O ramo em que temos mais atuação é a parte do apoio domiciliário, até porque nos intitulamos como empresa de apoio domiciliário. No fundo os outros serviços vieram complementar a oferta. Percebemos que havia uma lacuna aqui na Terceira, e nos Açores, mas para já, estamos só na Terceira, e percebemos que as pessoas não tinham acesso a formação, de curto período, certificada por uma empresa e com profissionais de saúde nesta área. Assim permitimos que, não só os nossos funcionários fizessem formação, mas também os cuidadores informais, pessoas que cuidam do pai ou da mãe, do avô ou do vizinho. O ramo principal é o apoio domiciliário, tudo o resto vem alargar a oferta.
Conta com quantos colaboradores?
Neste momento, em termos de cuidadores, contamos com uma equipa de mais de 20 pessoas. Depois temos à parte a equipa dos profissionais de saúde, em que temos médico, enfermeiro, terapeuta da fala, psicólogo, fisioterapeuta, nutricionista e alguns outros serviços complementares, nomeadamente cabeleireiro, esteticista, arquiteto, que são tudo colaboradores que trabalham connosco mas à parte do enfermeiro, todos os outros são requisitados sempre que é necessário. Em termos de equipa, nós somos mais de 30 pessoas, 20 cuidam diretamente dos utentes e todos os outros de forma indireta.
Tem sido fácil o recrutamento de recursos humanos para as diferentes valências oferecidas?
Não. A parte mais difícil de gerir na Doce Lar e aquela que é para nós a nossa mais valia no mercado é exatamente essa. É o processo exaustivo de recrutamento. Desde logo pela falta de pessoas, a Terceira acaba por ser, nesse aspeto, um meio pequeno, temos logo esse problema da dimensão que não se consegue resolver. Depois pela falta de formação das pessoas, porque não havia acesso a cursos nesta área. Havia, por exemplo, cursos de gerontologia, mas são direcionados para pessoas que seguiram estudos, que tiraram nono ano, ou decimo segundo, pessoas que têm o quarto ou sexto ano não conseguem acesso a formação nesta área. Acaba por ser muito complicado este processo, até porque a maior parte dos nossos colaboradores necessita ter carta de condução e viatura própria para se deslocar a casa dos clientes, o que é outro inconveniente no recrutamento e portanto há aqui alguns constrangimentos nesse sentido e à parte disso tudo há a parte mais importante que é a avaliação que nós fazemos e cada pessoa. Costumo dizer que só seria capaz de recrutar uma pessoa que fosse capaz de cuidar dos meus pais. Isto dificulta o processo de recrutamento mas garante que quem contratamos vai efetivamente prestar um bom serviço ao cliente.
Candidatou-se a algum programa, programas, de apoio em vigor?
Nós não nos candidatamos a qualquer projeto, pelo menos para já, embora estejamos incubados na Startup de Angra. Ainda antes da sua passagem para o novo edifício, nós já tínhamos falado com o então diretor executivo, o doutor Fábio Santos, para que pudéssemos ter esse follow up da StartUp e que pudéssemos ouvir e receber mentoria de pessoas que já estão no mercado e que podem ter alguma coisa a acrescentar e que nós certamente temos muita coisa a aprender com eles. À parte disso não nos candidatamos a qualquer programa.
Está na Startup de Angra. Porquê?
Para já porque a nossa ideia inicial prendia-se com o facto de termos um espaço onde trabalhar, para não ser em minha casa, nós começamos o ano passado a fazer as entrevistas ao ar livre em esplanadas, porque não tínhamos escritório, era um custo elevado no início do processo que conseguimos ultrapassar ao vir para a StartUp. A StartUp de Angra também nos deu a hipótese de termos mentoria, e nisso tenho de dar os parabéns ao diretor executivo da StartUp, que tem sido impecável não só connosco mas com todas as empresas que cá estão encubadas. Acaba por ser uma mais valia pela ponte que a StartUp faz entre potenciais investidores, potenciais clientes, entre as próprias empresas que vão aparecendo na StartUp, em várias frentes, do ramo do design, da tecnologia, da segurança no trabalho, e podemos fazer essa ponte e estar ao pé de empresas que de outra forma dificilmente conseguíamos encontrar por estarem numa fase de lançamento em que ainda não são muito conhecidas, e portanto em todos estes aspetos a startup é importante, não só para nós mas como para qualquer empresa que possa ser criada.
Como tem sido a relação com a Startup de Angra?
Muito boa, sem sombra de dúvida.
A empresa já atingiu o equilíbrio financeiro?
Sim, já atingimos o break even. Já obtemos lucro, que é o que se pretende. E já atingiu por vários motivos. Para já porque não fizemos no momento inicial um grande investimento, mas também porque temos assistido nos últimos meses a um grande crescimento da empresa. Cada vez mais sentimos que as pessoas conhecem e confiam na Doce Lar. Trabalhamos tanto em Angra como na Praia e felizmente a empresa tem crescido muito nos últimos meses, também dai o processo de recrutamento que falava ter sido difícil, porque precisamos de cada vez mais funcionários, e o leque aperta-se porque há menos pessoas disponíveis. Tem sido essa a chave para que já tenhamos atingido o equilíbrio financeiro.
Que valor de investimento?
Não lhe consigo dizer um valor que tenhamos gasto no início, porque grande parte dos custos foram sendo diluídos ao longo do tempo. A questão do marketing e da publicidade, desde a rádio às redes sociais, foi feita ao longo do tempo. Nós preferimos diluir esse custo ao longo do primeiro ano de atividade, correndo o risco da empresa crescer a um ritmo muito mais lento porque pouca gente nos conhecia mas também reduzindo o risco financeiro para nós. E todos os outros gastos desde o fardamento, ao material logístico também foram sendo feitos ao longo do tempo, portanto não consigo precisar neste momento qual foi o valo gasto inicialmente porque os custos foram sendo diluídos.
O investimento tem sido feito com recurso a capitais próprios?
O investimento foi feito com recurso a capital próprio e aqui tivemos a ajuda de duas empresas que foram muito importantes para nós no inicio, nomeadamente a Praia Saúde, com o facto de nos permitir adquirir o material que precisamos, não só para o enfermeiro, para o terapeuta da fala, para o médico, para os nossos cuidadores, com um prazo alargado de pagamento. Tivemos, por outro lado, o apoio da gráfica com que trabalhamos, a Paralelo Oceano, que em relação a todo o material desde fardamento, a material de design e publicidade nos facilitou, de igual modo, bons prazos de pagamento. Felizmente estas duas parcerias acabaram por nos ajudar muito em termos de investimento inicial.
Tem planos para desenvolver a empresa? Quais?
Já recebemos várias abordagens para estarmos presentes noutros locais, noutras ilhas dos Açores, mas não o queríamos fazer sem termos a certeza que o nosso modelo de crescimento é assente sobre aquilo que acreditamos ser o melhor para os outros, desde logo pela confiança que cada um dos nossos clientes tem depositado em nós e nos nossos cuidadores. Pretendemos, de facto, chegar a mais locais, chegar a mais pessoas na Terceira, porque é aqui que começámos e onde pretendemos ajudar mais pessoas. Queremos chegar a outras ilhas, mas não lhe posso dizer que será em 2018 ou 2019 até porque temos de escolher muito bem as pessoas que ficarão responsáveis nesses locais porque serão a cara da empresa e responsáveis pelos cuidados aos utentes. É esse o motivo pelo qual muitas empresas de franchising acabam por abrir e fechar pouco tempo depois, perde-se o controlo e cometem-se muitos erros quando se está em muitos sítios e não se consegue controlar sequer o primeiro. Queremos chegar a mais ilhas mas teremos tempo.
Eduarda Alves




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