
Aos médicos e enfermeiros que não querem ou não podem voltar para as suas casas depois de um dia árduo de trabalho, há pessoas, um pouco por todo o País, a disponibilizar-lhes gratuitamente casas e apartamentos. Mas e a segurança? Segunda-feira já há uma reunião para fazer desta iniciativa um projeto formal e seguro
“Éum mix de gratidão por todos os profissionais de saúde que, incansavelmente, dão o corpo às balas com um altruísmo intrínseco”, explica à VISÃO Cristina Rodrigues, que acaba de disponibilizar o seu T2 na Rua do Teatro, mesmo na Foz do Porto, a um minuto a pé do mar. Normalmente, o apartamento, que vai poder acomodar até quatro profissionais de saúde (tem quatro camas individuais), destina-se a arrendamento de curta duração. Mas, agora, o objetivo será ajudar, sem qualquer custo, quem mais precisa. “O apartamento ficou livre na quinta-feira e não hesitei”, conta a proprietária, que já cancelou algumas reservas que tinha até abril. Não há, ainda assim, um tempo determinado para alojar os profissionais nestas condições. “Tudo dependerá da evolução da epidemia”, esclarece.
Tal como Cristina, outras pessoas decidiram, num ato de generosidade, disponibilizar as suas casas e apartamentos vazios a médicos e enfermeiros que não querem ou não podem regressar às suas depois do trabalho, mas também a profissionais de saúde deslocados de propósito devido à Covid-19.
No Facebook, já surgiram várias partilhas de quem pretende dar conforto e segurança a quem tem trabalha (e arrisca a sua vida) diariamente para tentar travar este vírus. “Se souberem de algum profissional de saúde que precise de casa para ficar para não ter de ir para casa (para não correr o risco de infetar familiares) tenho um T0 em Guimarães que estou disposto a ceder gratuitamente”, lê-se numa publicação, partilhada por uma agência imobiliária da cidade.
Também em Braga surgem ofertas, com pessoas a disponibilizarem quartos e apartamentos de Alojamento Local a profissionais de saúde, “quer por estarem deslocados das suas casas para suprirem necessidades dos hospitais, quer por não poderem ir para casa para protegerem os seus familiares de eventuais contágios”. Outras pessoas oferecem quartos no Porto a profissionais deslocados que vão reforçar os hospitais do Porto, assim se lê no Facebook.
Em Lisboa, o Unique Lisbon Rooms, um Alojamento Local na zona dos Anjos, também já está disponível para todos os profissionais de saúde que precisem de descansar ou pernoitar de forma gratuita. ” A ideia foi altruísmo puro da minha mãe, que é um ser humano maravilhoso e de coração gigante”, conta à VISÃO Duarte Gomes, um dos proprietários do AL, conjuntamente com a sua mãe, Fátima Pereira. ” Ela falou-me disso e, na hora, passámos à ação, usando as redes sociais como veículo prioritário dessa mensagem”, explica.
Este alojamento, próximo dos hospitais de São José, Estefânia e Capuchos, está, já, disponível para os profissionais de saúde que estão na linha da frente do combate que agora se trava e que, “por questões de salvaguarda familiar ou deslocação, queiram um espaço seguro para descansar”. ” Só pedimos um comprovativo da ocupação profissional, de forma a evitar o aproveitamento abusivo de pessoas que não estejam nesse enquadramento”, esclarece Duarte Gomes.
“Tem de haver um protocolo com a DGS e outras entidades para se realizar esta iniciativa de forma segura para todos”
Carla Costa Reis, fundadora do projeto Alojamento Local Esclarecimentos, quer levar a iniciativa de alojar profissionais de saúde de forma gratuita mais longe. Mas, para isso, é crucial haver um esforço conjunto da sociedade civil com o Governo e as Autoridades de Saúde. “Acho muito bonita a onda de solidariedade e generosidade que estamos a viver relativamente à oferta de alojamento, mas é preciso que se garantam todas as condições de segurança, saúde e higiene de todos”, defende.
É, por isso, essencial a existência de um protocolo com a Direção Geral de Saúde e outras entidades para se realizar esta iniciativa. “Tem de existir um protocolo de higiene e limpeza para proteger os profissionais de saúde. Como será feita a limpeza do espaço? Com que produtos? Isso tem de ser tudo esclarecido”, explica.
Além disso, vai existir uma plataforma que facilitará todo o projeto: em primeiro lugar, os médicos e enfermeiros vão colocar nesse espaço as suas informações, de forma a garantir-se a fiabilidade das suas profissões. Em segundo lugar, os Alojamentos Locais também terão de disponibilizar os dados sobre o espaço nessa mesma plataforma.
“Neste momento, estamos em diálogo com as várias entidades, sendo que, esta segunda-feira, vamos ter uma reunião com a Associação do Alojamento Local de Portugal com o objetivo de elaborar um texto que vai ser apresentado ao Governo e às Autoridades de Saúde”, refere Carla Costa Reis.



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