A valorização do dólar e a subida dos juros da dívida norte-americana têm penalizado o ouro e até gestores de longo-prazo têm reduzido posições. Ainda assim, os analistas do ING encontram cinco fatores que poderão apoiar a matéria-prima.


O valor do ouro tem vindo a cair nos últimos meses, tendo quebrado a barreira dos 1.300 dólares, este mês, pela primeira vez em 2018. A desvalorização levanta questões sobre se o ‘ativo-refúgio’ ainda é ou não um bom investimento. Os analistas do ING não esperam que uma rápida inversão na tendência descendente da matéria-prima, mas também não vêem razões para os investidores desistirem já.

“Houve tempos em que parecia que o metal dourado está prestes a subir, mas após várias tentativas falhadas de consolidação significativa acima de 1.350 dólares e de atração de entrada de capital este ano, foi a recuperação do dólar e a subida nas yields a determinar o único caminho possível: para baixo”, explicou Oliver Nugent, estrategista de commodities do ING, numa nota de análise.

O ouro negoceia atualmente nos 1.290 dólares, já longe dos máximos deste ano, nos 1.355 dólares. Curiosamente, desde o Dia dos Namorados – data por excelência de corrida ao ouro, ainda que outro – que a matéria-prima não toca esse valor.

A valorização do dólar e a subida dos juros da dívida norte-americana têm penalizado o ouro e até gestores de longo-prazo têm reduzido posições. A estimativa do ING é que as yields das Treasuries a 10 anos cheguem aos 3,4%, dos atuais 3%, pressionando ainda mais o ouro. “Mas, com a saída de muitos dos fundos longos, o crescimento da inflação, o risco geopolítico e a retoma da procura física deverão limitar os aspetos negativos. As coisas não deverão piorar muito mais, mas ainda vai demorar algum tempo antes de melhorarem”, afirmou Nugent.

Cinco razões que poderão apoiar o ouro:

1. Apesar da redução das posições dos investidores, o estrategista lembra que os ETF ligados ao ouro aumentaram para máximos de 2013 e não mostram sinais de liquidação. A guerra comercial e a aproximação das eleições nos EUA poderão estar entre os fatores de incerteza que levam os gestores de ETF a apostarem que a na matéria-prima vai recuperar.

2. O ING está à espera que o dólar perca força para retomar uma visão otimista sobre o ouro, dado que as expetativas é que a inflação suba nos EUA este ano (entre 2,8% e 3% no final do ano), devido à subida dos preços do petróleo. Além dos EUA, outros países importadores de petróleo vão ser pressionados, incluindo a Turquia, que o quinto maior investidor de retalho em ouro. Nugent acrescenta que as sanções ao Irão já estão a fazer aumentar a procura por ouro no país, que é o quarto maior consumidor de joelharia do mundo.

3. O primeiro trimestre do ano foi de queda da procura, em parte devido à Índia. O World Gold Council estima uma redução de 7%, em termos homólogo, a maior em uma década. Só na Índia, a queda foi de 12%. No entanto, a procura no país foi temporariamente afetada pelo calendário oferecer menos dias auspiciosos para casamentos (houve apenas sete entre janeiro e março, face aos 33 no resto do ano), pelo que a procura poderá ainda recuperar. Além dos casamentos, o ING também espera que uma recuperação do poder de compra de joalharia pela população rural indiana, graças aos subsídios do Governo.

4. Na China, a procura tem modesta, tendo aumentado 8% no primeiro trimestre do ano, face ao mesmo período de 2017. Ainda assim, o preço do ouro em renminbi está no valor mais baixo desde o início de 2017. “Por isso, esperamos assistir a alguma compra de pechinchas”, explicou o estrategista do ING.

5. Por último, o analista refere que o impacto de um mercado físico mais rigoroso terá um papel cada vez maior, que poderá contrariar as tendências causadas pela moeda e juros. “Com as negociações da Coreia do Norte a parecerem menos prováveis e o impasse comercial entre UE e EUA, é possível que os influxos geopolíticos de curto prazo possam criar apoio, mas é mais provável que os preços acalmem nos próximos meses até que os políticos e instabilidade política voltem em foco”, acrescentou.

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