
A gigante de e-commerce chinesa Alibaba quer abrir as portas do mercado chinês às empresas portuguesas. Por isso, deixa conselhos aos empreendedores que pensam rumar com os seus produtos ao Oriente.
A Alibaba realizou ontem a sua primeira conferência oficial em Portugal. “A porta de entrada para as empresas portuguesas na China: e-commerce, tecnologia e inovação” foi o tema do evento que decorreu durante a manhã do dia 29 de novembro no Museu do Oriente, em Lisboa.
Desta reunião, que contou com alguns dos líderes da gigante chinesa e com representantes de mais de 300 negócios e empresas, ficou a intenção de abrir mais parcerias com empresas portuguesas que queiram vender os seus produtos na Tmall, um site de comércio gerido pela Alibaba que tem mais de 500 milhões de utilizadores ativos por mês.
O mercado chinês – a visão da Delta, Parfois e Aptoide
Delta, Parfois, Renova, Prozis e Cutipol são apenas cinco nomes das empresas portuguesas que já estão presentes nesta plataforma de e-commerce. A grande atração deste novo canal que está – aos poucos – a ser aberto aos portugueses é a dimensão do mercado. No caso da Delta, por exemplo, Rui Miguel Nabeiro, o CEO da empresa portuguesa, referiu que, apesar de só “8% dos chineses beberem café, isto equivale a mercado de 110 milhões de pessoas”. A este número junta-se a classe média em clara expansão. Em apenas cinco anos, as pessoas inseridas neste grupo aumentaram de 300 milhões para 600 milhões, o que se traduz num maior poder de compra e numa grande oportunidade para os retalhistas e produtores de bens de consumo.
A atração é facilmente percetível quando olhamos para os números. Para Frederico Pulido, diretor de e-commerce da Parfois, a pergunta que agora se deve impor às marcas é: “porque é que ainda não estamos na China?”. A marca portuguesa de acessórios femininos já está um passo à frente das suas concorrentes lusas no mercado chinês, contando com uma loja em Shangai, onde os clientes experimentam e compram as peças, mas sem nunca as levarem pela porta da frente da loja. Em vez disso, as compras são enviadas para casa dos clientes, aumentando assim o potencial do comércio online e criando uma experiência que liga o mundo físico ao digital.
Já a Aptoide, loja portuguesa de aplicações mobile liderada por Paulo Trezentos, rumou a Oriente com outra intenção. Para além de ser um país com um grande potencial no mercado online, a China é uma das maiores fabricantes de smartphones do mundo, sendo a província de Shenzhen conhecida como a capital mundial de hardware. Por esta razão, em vez de navegar para o Oriente com o objetivo de vender, a Aptoide estabeleceu como meta aumentar as parcerias com os fabricantes de telemóveis chineses. “Há três anos descobrimos que os fabricantes eram um parceiro ideal para a nossa loja de apps. Abrimos um escritório na China para estarmos mais próximos dos fabricantes”, explicou Trezentos.
O que fazer para entrar na China
Apesar de ser um público bastante apetecível devido à imensidão de potenciais clientes, a ideia que ficou do evento é que a China não é – de todo – um mercado fácil de penetrar. Alba Ruiz Laigle, gestora de desenvolvimento comercial para Portugal e Espanha da Alibaba Group, referiu que é fulcral que as empresas portuguesas recorram a um parceiro local para conseguirem uma abordagem de mercado eficaz.
Ruiz Laigle deixou ainda algumas luzes aos empresários portugueses sobre como entrar no mercado de forma eficiente:
– criar uma equipa local dedicada;
– construir uma parceria sólida com alguém com experiência na plataforma da Alibaba;
– investir em marketing;
– definir o ponto de venda único;
– analisar o mercado, os consumidores e os competidores;
– pensar a longo-prazo.
Na mesma tónica, Rui Miguel Nabeiro da Delta explicou que é importante que os portugueses vão para a China e mantenham os pés assentes na terra. “Quando vamos para lá não podemos esperar conquistar mundos e fundos”, explicou.
Paulo Trezentos fez o mesmo apelo, acrescentando ainda que é importante levar a cabo uma investigação antes de se estabelecerem no país, visto que “não podemos ir para a China a pensar que as soluções que funcionam em Portugal ou na Europa também vão funcionar lá”. Outro conselho relevante é o da persistência. No caso da loja de apps, “só ao final de dois anos é que tivemos a parceira que queríamos” e é por isto que os empresários que estabelecerem um escritório na China não devem “esperar resultados imediatos”.
Outra grande diferença no modus operandi das empresas portuguesas e das orientais – e que já tinha sido apontad numa entrevista do Link to Leaders pelo diretor da Konica Minolta Portugal – diz respeito às relações criadas no âmbito das parcerias. Enquanto que os portugueses estão habituados a ter parcerias curtas, os chineses prezam e apostam em relações a longo-prazo.
Leia ainda o estudo: “As razões para as grandes tecnológicas ocidentais falharem na China”.

Nasceu há dois anos e chega agora a Portugal. Esta startup quer facilitar a vida aos hosts para que seja simples ter uma casa anunciada numa plataforma de alojamento local.
Mesmo com as medidas anunciadas pelo Governo para travar o alojamento local, são cada vez mais os edifícios que se tornam em residências temporárias para turistas. Foi a olhar para este cenário que nasceu a Guest Ready, uma startup criada a pensar nos proprietários que não têm tempo para tratar dos pormenores da estadia com os hóspedes. As horas do check-in e do check-out, a entrega das chaves e até a limpeza das casas vai deixar de ser um problema para os proprietários que não têm tempo a perder.
Alexander Lampert costumava colocar a casa no Airbnb porque raramente lá estava. “Eu sempre fui uma pessoa muito ocupada, viajava com muita frequência e comecei a alugar a minha casa no Airbnb. Mas, durante esse tempo, percebi que havia muitas dificuldades para os hosts, especialmente quando não estão lá fisicamente ou quando não têm muito tempo“, conta ao ECO o CEO e cofundador da Guest Ready.
"Muitas vezes temos de pedir a amigos ou a vizinhos para limpar o apartamento ou para entregar as chaves aos hóspedes. Foi quando decidi criar um serviço que ajudasse os hosts que não têm muito tempo para tratar dos hóspedes e das suas propriedades.”

CEO e cofundador da Guest Ready
“Muitas vezes temos de pedir a amigos ou a vizinhos para limpar o apartamento ou para entregar as chaves aos hóspedes. Foi quando decidi criar um serviço que ajudasse os hosts que não têm muito tempo para tratar dos hóspedes e das suas propriedades“.
Foi então que, no início de 2016, nasceu a Guest Ready, uma plataforma que ajuda qualquer proprietário a alugar a sua propriedade numa plataforma como o Airbnb ou o Booking. “Consegue tornar qualquer propriedade num alojamento local e oferece várias vantagens aos proprietários”, continua Alexander. Entre os serviços da startup podem destacar-se a criação de um anúncio, fotografias, comunicação e seleção de hóspedes, receção e entrega de chaves, otimização de preço, limpeza, roupa de cama e lavandaria e manutenção de propriedade, lê-se no site.
Alojamento local gerido pela Guest Ready.
Porquê o nome “Guest Ready”? “Porque conseguimos tornar qualquer propriedade numa propriedade pronta para os hóspedes”, explica Alexander ao ECO, que descreve a startup como “confiável”.
Reino Unido, França, Hong Kong, Dubai, Malásia e… Portugal
A Guest Ready está atualmente presente em cinco países — Reino Unido, França, Hong Kong, Dubai e Malásia — e, agora, chega a Portugal. “Fizemos um teste em que analisámos diferentes mercados de acordo com os seus tamanhos, número de turistas, preços do serviços, etc.. Foi com essa análise que, tanto o Porto como Lisboa se destacaram. São mercados bastante atrativos para as empresas que queiram investir, com muitos bons acessos e bons ecossistemas em termos de tecnologias“, explica o CEO da startup.
"Temos atualmente uma equipa de dez pessoas em Portugal. No próximo ano queremos crescer até às 30 pessoas, principalmente no Porto e em Lisboa e, nos próximos cinco anos, queremos chegar às 100.”
As duas cidades mais famosas do país são um “bom começo” para a Guest Ready, diz Alexander. “Mas Portugal tem muito mais do que isso. Estamos a olhar para as zonas do Algarve, Madeira e Açores e até para outras cidades mais pequenas como Coimbra. Todas têm muito potencial. Também acreditamos que o Alentejo e o Douro são boas localizações”.
Acabada de chegar a território nacional, a Guest Ready já conta com uma equipa de dez pessoas. “No próximo ano queremos crescer até às 30 pessoas, principalmente no Porto e em Lisboa e, nos próximos cinco anos, queremos chegar às 100”, afirma. O mercado do alojamento local em Portugal é uma “fantástica oportunidade” para implementar uma plataforma como esta, diz o cofundador. O elevado número de turistas, os edifícios restaurados e a disponibilidade dos centros das cidades para o alojamento local são algumas das vantagens. “Estamos a criar muitos empregos e, ao mesmo tempo, é algo muito positivo para a cidade”, remata.

A Redcatpig Studio é uma start-up de videojogos que nasceu nos Açores pela mão de três gamers com vontade de marcar a diferença e de criar um projeto nacional na área. Marco Bettencourt é o CEO do projeto que, à conversa com o Link to Leaders, falou sobre as dificuldades de ter um projeto nesta área, das mais-valias da Web Summit e do KEO, o primeiro produto que está a ser desenvolvido pelo estúdio da ilha Terceira.
Como nos contou o gestor do projeto, o sonho dos três amantes de videojogos só foi possível concretizar devido à ajuda de um business angel que investiu o suficiente para sustentar a equipa durante um ano e meio, e de importantes entidades que fomentam o empreendedorismo nas ilhas açorianas, como a Sociedade para o Desenvolvimento dos Açores (SDEA) e a Startup Angra, uma incubadora de Angra do Heroísmo.
Apesar de ainda não ter um produto finalizado, a Redcatpig Studio já atingiu alguns feitos. A nomeação para finalista de melhor jogo de 2018 pela PlayStation Talents Portugal é apenas uma das conquistas da equipa açoriana.
Diria que são, de alguma maneira, penalizados por estarem nos Açores e não em Lisboa?
É engraçado porque na Web Summit tínhamos o nosso booth e estava lá o nosso logótipo com uma pequena descrição que, com todo o orgulho, dizia que somos um estúdio de videojogos dos Açores. Quando as pessoas passavam, incluindo estrangeiros, reconheciam a palavra “Azores” o que é muito bom. Do meu ponto de vista, acho que isso até funciona um pouco a nosso favor, pelo facto de que o tecido criativo lá não é muito grande, o que significa que temos aqui uma margem de projeção bastante superior. Para além disto, está a haver uma série de medidas locais para fomento do empreendedorismo pelas entidades públicas, nomeadamente pela Sociedade para o Desenvolvimento Empresarial dos Açores (SDEA). Acredito que pelo facto de sermos pequenos e algo diferentes chamamos ainda mais a atenção das pessoas.
Como é que surgiu o projeto?
A Redcatpig Studio nasceu há dois anos, quando dois colaboradores de uma empresa anterior vêm falar comigo e me dizem que estão a desenvolver um projeto à noite e que queriam que eu fizesse parte. Somos os três gamers, mas eles optam por jogar os videojogos atuais e eu prefiro uma “onda” mais vintage, como Super Mário, por exemplo. Quando me propuseram isto, disse-lhes que adorava avançar numa aventura destas, mas, claro, que iria ser uma aventura que precisava de nós a tempo inteiro e, para estarmos a tempo inteiro, naturalmente precisamos de financiamento. Nem eu nem eles tínhamos essa capacidade e, infelizmente, nenhum de nós podia recorrer aquele fundo internacional chamado “paitrocínio”. Por isso, pedi-lhes que me fizessem alguns sketches, mesmo em folhas, daquilo que seria o KEO – o nosso primeiro jogo – e eu desenvolvi um plano de negócios com algumas previsões de vendas e um estudo de mercado. Peguei neste plano de negócios e apresentei a uma série de pessoas que achei que teriam interesse nesta aventura. Depois de alguns contactos tive sucesso e consegui o apoio de um business angel nacional. Esta pessoa, apenas com base num plano de negócios e em alguns sketches feitos pela equipa acreditou em nós. Gosto de acreditar que o que vendeu a ideia foi mesmo a equipa.
“O objetivo é a angariação de uma segunda ronda de investimento porque temos uma demo, mas ainda não é nada que possa ser rentabilizado”.
O que é que fizeram com o dinheiro recebido?
Com o dinheiro deste investimento fomos capazes de nos sustentar durante um ano e meio, comprar material e algumas licenças que eram necessárias, o que nos trouxe à situação atual, em que temos uma demo em alpha, o produto responsável por toda a atração que temos tido. Se não fosse este investimento inicial, a ideia era fantástica, mas não tínhamos conseguido fazer nada.
Atualmente, o objetivo é a angariação de uma segunda ronda de investimento porque temos uma demo, mas ainda não é nada que possa ser rentabilizado.
“Os investidores que têm medo de entrar na indústria gaming começam a ver isto como uma mais-valia porque diminuem o risco”.
Quanto é que receberam deste business angel?
Preferia não revelar o valor por razões estratégicas. Hoje em dia, a indústria gaming tem tido um boostem Portugal e nós também ganhamos com isso. Graças a isso, com os contactos que tenho tido nos últimos dias, os investidores internacionais têm olhado mais para nós. Estas pessoas ainda não estão na área gaming, mas têm uma vontade tremenda de o fazer. Quando olham para Portugal percebem que existem muitas pessoas com talento, capacidades técnicas tremendas e com um custo mais baixo do que lá fora. Ou seja, enquanto temos estúdios aqui em Portugal que precisam de 100 mil euros para fazer uma demo, esse valor seria de 200 mil euros na Alemanha ou de 300 mil euros nos Estados Unidos. Os investidores que têm medo de entrar na indústria gaming começam a ver isto como uma mais-valia porque diminuem o risco.
Em que consiste o KEO?
A nossa ideia foi embarcar um pouco na onda daquilo que está a atrair todas as atenções hoje em dia, que é o multiplayer. No entanto, com o nosso input e gosto pessoal, tentando sempre marcar a diferença com aquilo que já existe no mercado. É algo extremamente difícil. Só na Steam – uma das maiores plataformas digitais de distribuição de videojogos do mundo – temos 50 jogos novos diariamente, o que significa que é bastante difícil marcar a diferença neste universo. Portanto, o nosso papel aqui foi tentar fazer algo diferente daquilo que já existe no mercado, mas seguindo algumas das tendências.
Daí surgiu o KEO, que é um MOBA (multiplayer online battle arena) em que há veículos de combate personalizáveis e arenas com diversos tipos de jogos. Este produto tem vindo a chamar a atenção por causa do grafismo, da qualidade da arte, das suas cores vibrantes e também pelo facto de não ser nada obscuro, o que vai ao encontro do nosso principal objetivo, que é alargar ao máximo a possível a faixa etária. Temos testers que vão desde os seis aos 60 anos de idade. Outro objetivo que conseguimos alcançar foi trazer pessoas que, por norma, jogam outro género de videojogos. O pessoal dos carros, por exemplo, que costuma ter alguma aversão a jogos de combate, tem-se mostrado bastante contente com o jogo que criámos. Houve também jogadores profissionais de e-sports nacionais a jogarem o KEO e o input deles foi que se criava facilmente um campeonato do nosso videojogo.
Que é que atualmente é um ângulo fundamental para os jogos online…
É um modo de exposição brutal. Quando se cria uma liga começamos a ter equipas, prémios em dinheiro e, por consequência, um suporte profissionalizado porque começamos a ter jogadores a “brincar” com o jogo profissionalmente. Esta é uma vertente muito importante para nós e temos tido isso em atenção.
Tiveram algum cuidado para tornar o jogo apetecível de ver, para ser divulgado em plataformas de streaming como a Twitch e o YouTube?
Por enquanto, confesso que não há uma atenção a este tipo de processo. No entanto, é algo que vai fazer parte do próximo desenvolvimento. Há muitas coisas que ainda têm de ser acabadas no jogo e esta é, naturalmente, uma delas.
Como se vai desenvolver o vosso modelo de negócio? Querem que as pessoas paguem pelo jogo ou vão apostar nas microtransações – ou ambos?
Este é outro ponto que ainda não está certo. O que eu posso dizer é que o feedback de algumas distribuidoras aponta para que o jogo deva ser pago, mas não estaríamos a falar de valores acima dos 15 euros.
“É importante deixar bem claro que ninguém pense que vai sair da Web Summit com um cheque na mão. Ninguém vai para lá com um livro de cheques”.
Em relação à Web Summit, continua a haver muito o estigma de que este congresso tecnológico não serve de muito para o desenvolvimento dos projetos dos empreendedores que participam. O que vos diz a vossa experiência?
Se esta pergunta tivesse sido feita há duas semanas eu talvez concordasse com essa afirmação. E, se o fizesse, tinha sido a pessoa mais estúpida à face da Terra.
Agora posso dizer que vale muito a pena, mas tenho de ser sincero em relação a um aspeto: não é só a ideia ou aquilo que se pretende fazer lá, parte muito dos empreendedores também. Tem de se ter muita “cara de pau”, não se pode ter vergonha de fazer um pitch a qualquer momento e eu vi algumas start-ups que não tinham presença em nenhum espaço físico e que foram com as mesmas intenções que todas as outras, mas esperavam que fossem falar com eles – ficavam “acanhados”. E não pode ser assim.
Quem está na Web Summit tem de estar mentalizado de que a vergonha tem de ficar na porta e que têm de ser muito proativos. Os investidores não estão à espera de ninguém, as pessoas é que têm de correr atrás deles. Eu falei com alguns e o que posso dizer é que foram extremamente humanos e diretos ao assunto. Estas pessoas só têm 20 minutos para “perder” com cada projeto e os empreendedores têm de perceber isso. São só três dias. A expressão “tempo é dinheiro” não pode ser mais bem validada do que na Web Summit.
Eu corri quilómetros durante estes três dias e, agora, posso dizer que valeu a pena. Criei contactos e relações interessantes, mas é importante deixar bem claro que ninguém pense que vai sair da Web Summit com um cheque na mão. Ninguém vai para lá com um livro de cheques. O trabalho feito durante estes dias só começa agora, depois da conferência ter acabado e de ter falado com pessoas muito interessantes.
Tais como?
Falei com o head of worldwide marketing da Amazon, por exemplo. Tive uma conversa de 25 minutos extremamente agradável e o que mais me impressionou foi o facto de – depois de termos tido uma pequena conversa para quebrar o gelo – ele me dizer que viu o trailer do jogo e que o achou brutal. Eu arregalei os olhos e disse “posso-me ir embora, já não preciso de falar mais contigo. O que me acabaste de dizer já vale o mundo para mim”.
Estamos a falar de uma pessoa que gere o marketing a nível global de uma das maiores empresas do mundo e que tem mais de 300 pessoas na equipa dele. E é uma pessoa extremamente terra-a-terra e simples, que tem interesse em saber sobre mim, sobre o projeto e que até elogiou o nome do nosso estúdio e a animação do nosso logótipo quando se entra no website. Tudo isto enche-nos a alma e dá-nos força. Podemos ser os mais pobres à face da Terra, mas este tipo de conversas enche-nos. Neste momento, posso dizer que o projeto está parado. Eu sou o único a trabalhar a 100% nele, sem ganhar nada, desde fevereiro, mas isto serve de combustível. Não posso pegar nesta conversa e pagar a conta da luz ou da água do próximo mês, mas dá-me força para continuar a tentar e acreditar que vamos conseguir.
Também conheci uma pessoa que trabalha no marketing da Unity – um dos maiores motores do jogo do mundo – enquanto ela estava a ver o nosso jogo. Quis saber a história do nosso estúdio, que é invulgar. O nosso designer ajudava o pai nas vacas e o nosso programador de vez em quando ia à pesca com o pai. Ambos são autodidatas e fizeram um produto, que não está acabado, mas que dá sinais de um profissionalismo tremendo. E quando começo a contar-lhe isto ela diz-me que é uma história incrível e diz-me que “para nós, enquanto Unity, ter-vos como utilizadores só valida o nosso modelo de negócio. Dá-me o teu cartão que eu vou falar com o meu departamento e vamos fazer uma história sobre vocês”. Temos pessoas deste patamar a querer saber de nós e que não se colocam naquela posição de “estou cá em cima e não tenho tempo para ti, que estás aí em baixo”…
Diria que essa é uma característica muito portuguesa?
Com muita pena minha, sou obrigado a dizer que sim. Sou português com muito orgulho, vivi no Brasil durante 16 anos, mas já tenho 40 anos, já tive empresas e sou obrigado a dizer que sim. Digamos que fui “desconversado” muitas vezes. Enquanto que a Unity e a Amazon, que faturam milhares de milhões, nos deram uma validação, não sentimos o mesmo cá.
Tentei falar com alguns investidores portugueses sobre o projeto e eles simplesmente olhavam para o telemóvel… Já o head of marketing da Amazon tem um telemóvel a receber notificações constantemente e pousa-o de ecrã virado para baixo enquanto está a falar comigo.
“Precisamos de uma quantia para trabalharmos todos a tempo inteiro, ao mesmo tempo que essa pessoa fica com participação num estúdio que pode não ser só de videojogos, visto que este espaço já não é necessariamente B2C”.
Que tipo de investimento necessitam neste momento? É moldável ou têm um número fixo para o que precisam?
Pode ser moldável. Nós não queremos investimento para acabar o KEO, queremos financiar o estúdio. Ou seja, não queremos que invistam no produto, mas sim na equipa. E o feedback que temos tido dos investidores internacionais é que é exatamente isso que eles querem. Não querem um produto, querem uma equipa. E é disso que estamos à procura. Sei que vamos ter de ceder parte da nossa participação na empresa, mas sei que as coisas são sempre assim e estou completamente à vontade com isso. E, ao mesmo tempo, ganhamos um parceiro e é isso que procuramos: alguém que invista em nós e que comece a ter aqui o usufruto do nosso revenue anual. Basicamente é isso. Precisamos de uma quantia para trabalharmos todos a tempo inteiro, ao mesmo tempo que essa pessoa fica com participação num estúdio que pode não ser só de videojogos, visto que este espaço já não é necessariamente B2C (business to client). Temos um crescente interesse das empresas em levar a cabo iniciativas de gamificação, que agora está na moda.
Como a equipa que criou o Slack, que começou a querer desenvolver um videojogo e que acabou por desenvolver uma das maiores plataformas de gestão de trabalho do mundo…
Há muitos exemplos de que isto funciona. O pessoal do marketing das grandes empresas sabe o que quer, mas naturalmente não sabem fazê-lo e querem pessoas com essas especialidades. Esta vertente pode ser bastante interessante para a Redcatpig Studio.
Dentro de toda esta incerteza, quais são os próximos passos para o KEO?
Eu tenho-me ocupado a tempo inteiro do KEO com contactos diários e com idas a eventos sempre que consigo. Apresentar o jogo e o estúdio ao público. Só existe uma pausa no que diz respeito à produção. Enquanto não houver investimento – e não digo isto de uma forma apocalíptica – não produzimos. Havendo, avançamos de imediato para a produção a tempo inteiro. Tenho extrema confiança em toda a equipa e sei o que somos capazes de fazer.
Entretanto, enquanto não há investimento, o resto da equipa tem os seus projetos e eu consigo trabalhar nisto a tempo inteiro graças ao maior investidor que tenho e que é ainda maior que o business angel: a minha esposa. E não falo do ponto de vista financeiro, mas sim de força e fé. Ela está a suportar o forte enquanto eu estou a correr atrás deste projeto. Portanto, para mim, os próximos passos são continuar a bater a portas e dar follow-ups a todos os contactos feitos durante a Web Summit.

A InvestBraga vai integrar a Startup Cities European Partnership, uma iniciativa da Comissão Europeia.
O trabalho desenvolvido no apoio à criação de start-ups, foi o ponto de partida para InvestBraga passar a integrar o Startup Cities European Partnership, um projeto promovido pela Comissão Europeia que reúne cidades europeias “para definir estratégias de financiamento e promoção do crescimento de start-ups”.
A InvestBraga foi convidada, através da Startup Braga, para integrar esta rede europeia na sequência de uma reunião, realizada ontem em Bruxelas, no Parlamento Europeu, e que juntou agentes de dinamização económica, grandes empresas e financiadores
Definir a estratégia a curto prazo para o aumento da competitividade das cidades de média dimensão europeia cujo desempenho no apoio ao empreendedorismo e criação de start-ups tem alcançado relevância internacional, foi o objetivo da referida reunião.
Este convite é “uma oportunidade para apresentar Braga enquanto case study na dinamização económica a parceiros internacionais, participar na definição das políticas de investimento europeias e fomentar a ligação a outras cidades europeias com quem poderemos vir a desenvolver parcerias que contribuam para a dinamização económica de Braga”, afirmou Carlos Silva, administrador executivo da InvestBraga.
Uma posição reiterada por Alexandre Mendes, diretor executivo da StartupBraga, ao frisar que “integrar esta iniciativa poderá ajudar as 123 start-ups que fazem parte, neste momento, da rede da Startup Braga, a conquistar mercados internacionais, beneficiando de uma rede de parceiros distribuída por vários países europeus que poderão prestar apoio nesses processos.” Lembrou ainda o potencial de sinergias entre as cidades que integram esta rede.
Os responsáveis europeus sublinharam também a importância do desenvolvimento da competitividade destas cidades para a coesão europeia e reafirmaram o compromisso da Comissão Europeia na criação de linhas de financiamento adequadas aos desafios específicos das cidades.
Recorde-se que a Startup Braga, entidade gerida pela InvestBraga, é um hub de inovação concebido para apoiar a criação de projetos com potencial empreendedor nos mercados internacionais, e que atua no desenvolvimento e na promoção do empreendedorismo e na criação, incubação e aceleração de start-ups com destaque os setores de medtech, nanotecnologia e digital business.

Em entrevista ao Jornal Económico, Nathalie Risacher, ‘senior country manager’ da Natixis em Portugal, afirma que o país “apresenta um ecossistema de inovação e empreendedorismo (startups) muito dinâmico e organizado”. Questionada sobre se as criptomoedas são uma área para a qual a empresa está a olhar, a porta-voz assegurou que “ainda não”.
O centro tecnológico no Porto da Natixis está em funcionamento há um ano. Porquê a escolha de Portugal?
A escolha de Portugal para a instalação do Centro de Excelência em IT da Natixis resultou de um estudo exaustivo levado a cabo pela Natixis em vários países europeus. Entre os critérios tidos em conta nesta análise, estiveram a Educação, Inovação e Empreendedorismo, a Proximidade Cultural com França e o “Mindset” Internacional. A instalação do Centro de Excelência em IT da Natixis no Porto comprova a atratividade do País enquanto ecossistema de empreendedorismo e inovação, com vantagens competitivas, não só do ponto de vista das infraestruturas e integração tecnológica, mas também do capital humano: formado em universidades de topo, altamente qualificado nas áreas da ciência e tecnologia, proficiente em inglês e com uma cultura profissional internacional. Mais ainda, encontrámos na cidade do Porto excelentes instalações com fáceis acessos que nos permitem oferecer as melhores condições de trabalho aos nossos colaboradores.
Qual o balanço que faz das atividades até agora? Que projetos estão a desenvolver no Porto?
A criação do Centro de Excelência em IT surge no âmbito do plano estratégico da Natixis – New Dimension – que posiciona a inovação tecnológica e a digitalização como uma prioridade de topo para a Empresa. A decisão passou por internalizar alguns dos serviços de IT, até então prestados por fornecedores externos e dispersos geograficamente, de forma a fomentar a criação e retenção do conhecimento e inovação dentro da Natixis. Assim, na qualidade de Centro de Excelência em IT, a Natixis em Portugal dá suporte tecnológico aos serviços do banco, de forma integrada e transversal, em todos os países em que opera. A equipa de profissionais do Porto está a trabalhar de forma totalmente integrada com o negócio global do banco: banca empresarial e de investimento; banca de retalho; seguros; pagamentos; infraestrutura e segurança; e funções de suporte. Alguns dos projectos mais inovadores desenvolvidos a partir de Portugal estão nas áreas de Robótica, com diversos processos de automação de processos; Chatbot, com uma ferramenta simples e interativa para a comunicação com os clientes do banco; Cloud e DevOps. De uma forma geral, acreditamos que esta estratégia traz valor acrescentado à Empresa, nomeadamente experiência, inovação e multiculturalidade.
Quais são os planos para o futuro do centro (em termos de funcionários e projetos)?
A Natixis começou este projeto a partir do zero, e em apenas um ano e meio, já contratou 450 pessoas. A Empresa pretende criar, até ao final de 2019, um total de 650 novos empregos qualificados nas áreas de tecnologia de informação em Portugal. Para o Centro de Excelência em IT, a Natixis está à procura dos mais diversos perfis tecnológicos. Neste momento, procuramos essencialmente profissionais para as áreas de suporte aplicacional, análise de negócio, administração de bases de dados big data, business intelligence, bem como para funções mais transversais como agile coach. Além dos objectivos de atração e retenção de talento para as nossas equipas, a transformação digital e organizacional é uma clara prioridade para a Natixis. Queremos ser potenciadores do movimento digital num sector tecnologicamente mais tradicional, criar verdadeiro R&D e revolucionar a forma como as nossas equipas trabalham, segundo os princípios agile.
Além da Natixis, outras empresas internacionais estão a desenvolver atividades de IT em Portugal. Como vê o setor tecnológico em Portugal?
Portugal apresenta um ecossistema de inovação e empreendedorismo (startups) muito dinâmico e organizado, difícil de encontrar noutros países. O mercado de trabalho é altamente competitivo no sector tecnológico e só tem tendência para crescer: basta olharmos mais além, não só no Porto e Lisboa, mas em cidades como Braga e Covilhã. A pool de talentos tão rica que encontramos em Portugal continuará a ser chave para o investimento direto estrangeiro e acredito que terá um impacto muito positivo no crescimento económico do País nos próximos anos.
Como é que compara com outros países, particularmente europeus e EUA?
O mindset internacional dos profissionais portugueses é claramente diferenciador. Não é por acaso que Portugal terá sido o País dos Descobrimentos. Para além do elevado conhecimento de línguas, existe uma postura natural para os negócios e relações internacionais. Mais ainda, se olharmos para as novas gerações, a agilidade é a palavra de ordem no dia-a-dia de trabalho: não há tempo a perder. Acredito que Portugal é a melhor combinação de dois mundos: por um lado, o talento natural para os negócios, semelhante aos EUA, mas por outro, a visão europeia da criatividade. Por fim, se falarmos também na qualidade de vida e no espírito acolhedor, Portugal é, de longe, um vencedor.
Não vê como problemático que não haja representação do setor tecnológico na Bolsa de Lisboa?
A cotação em bolsa não é ainda uma opção imediata para a grande parte das empresas em Portugal, ao contrário dos Estados Unidos, por exemplo. São culturas económicas muito diferentes.
A Natixis não é a única instituição financeira francesa a investir em Portugal e há investimento em outras áreas também. Como é que a França vê Portugal nesta altura?
Emmanuel Macron visitou o País recentemente e, desde há muito tempo que Portugal e França mantêm uma relação próxima e só pode melhorar. Existem grandes empresas francesas instaladas em Portugal há já vários anos e com a recuperação económica, acredito que a tendência de investimento continuará a aumentar: os franceses estão muito impressionados com o perfil dos profissionais portugueses. Da minha experiência na Natixis em Portugal, vejo também uma dinâmica rede de organizações, como a Câmara de Comércio e Indústria Luso-Francesa, a AICEP, a própria Embaixada de França em Portugal, muito ativa e envolvida nestes processos. No caso da Natixis, podemos também realçar a importância da InvestPorto que, desde os primeiros estudos para a implementação da Natixis em Portugal, nos tem dado um suporte imensurável.
A blockchain é um tema incontornável no que diz respeito ao atual desenvolvimento tecnológico. Qual é a posição da Natixis sobre a blockchain?
Na Natixis, o Blockchain é já encarado como uma ferramenta-chave para melhorar a segurança e eficiência de comunicações e transacções. Somos inclusive membros de um grande consórcio internacional, R3, no âmbito da plataforma de R&D em Blockchain “Corda”, constituída por 80 instituições financeiras e cujo Presidente é Frédéric Dalibard, o responsável global de Blockchain na Natixis.
Desenvolvem algum tipo de atividade com recurso a esta tecnologia / planeiam fazê-lo?
Existem três grandes projectos na Natixis que utilizam o Blockchain: “Lea”, uma nova forma de gerir a identidade digital e agilizar a recolha de dados para o “know-your-customer”; “Marco Polo”, uma plataforma de open trade finance; e “Argent”, uma plataforma digital inter-fronteiras e inter-moeda, que garante uma maior segurança nos pagamentos internacionais.
As criptomoedas são uma área para que estejam a olhar?
Ainda não.


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