A população que não está nos grupos prioritários só começará a ser vacinada a partir de Julho. Não está recomendada a vacinação de crianças e grávidas por enquanto, por não haver dados suficientes.

Alexandra Campos 4 de Dezembro de 2020, 6:08

Portugal vai ter 22,8 milhões de doses de vacinas contra a covid-19 que chegam para imunizar toda a população mas o processo vai decorrer em três fases, a última das quais poderá prolongar-se até ao primeiro trimestre de 2022, tendo em conta a calendarização prevista da chegada das doses a Portugal que consta do plano de vacinação contra a covid-19 ontem apresentado. A população que não está incluída nos grupos prioritários apenas deverá começar a ser vacinada a partir de Julho de 2021.

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Os cidadãos terão que dar o “seu consentimento esclarecido”, depois de serem informados sobre as “precauções”, as “contra-indicações” e a possibilidade de ocorrência de “reacções adversas”, ainda que estas sejam “raras ou muito raras”, especifica-se no documento. Os detalhes terão ainda que ser definidos em norma a elaborar pela Direcção-Geral da Saúde (DGS).

Na primeira fase, que pode estender-se de Janeiro a Abril, serão vacinadas 950 mil pessoas, incluindo as que residem em lares e estão internadas em unidades de cuidados continuados e os profissionais que aí trabalham, além dos 400 mil doentes crónicos a partir dos 50 anos com patologias de maior risco para a covid-19 (insuficiência cardíaca, doença coronária, insuficiência renal mais grave, doença pulmonar obstrutiva crónica) e os 300 mil profissionais de saúde directamente envolvidos na prestação de cuidados a doentes e os profissionais das forças armadas e forças de segurança “considerados de serviço crítico” cuja “elencagem tem ainda que ser afinada”, explicou o coordenador do grupo de trabalho para o plano de vacinação, o ex-secretário de Estado da Saúde Francisco Ramos.

Portanto, as pessoas a partir dos 65 anos saudáveis ou que não residam em lares ou em unidades de cuidados continuados serão imunizadas apenas numa segunda fase (são 1,8 milhões, no total), à semelhança dos 900 mil cidadãos entre os 50 e os 64 anos com outras patologias (diabetes, neoplasia maligna activa, doença renal crónica, insuficiência hepática, obesidade, hipertensão arterial.) ​Esta segunda fase deverá decorrer no segundo trimestre de 2021 mas pode estender-se até Julho, consoante o ritmo de abastecimento das seis vacinas para as quais já existem acordos prévios de aquisição.

Finalmente, na terceira fase será imunizada a restante população, incluindo todos os residentes em Portugal mesmo que a sua situação não esteja regularizada, se os prazos de entrega previstos não forem alterados entretanto. Se isso acontecer, serão definidos um terceiro e quarto grupos prioritários. Esta fatia da população só começará, assim, a ser vacinada a partir de Julho.

Para definir os grupos prioritários, que podem ser alterados em função das indicações clínicas que vierem a ser aprovadas para as vacinas, foram levadas em conta as informações disponíveis sobre os óbitos e os internamentos sobretudo em cuidados intensivos. No plano sublinha-se que não há dados suficientes por enquanto para recomendar a vacinação a crianças e grávidas e enfatiza-se que a eficácia das vacinas em desenvolvimento ainda não é totalmente conhecida.

O primeiro-ministro, apesar do optimismo, quis deixar claro que o processo vai ser longo: “Já vemos a luz ao fundo do túnel, mas as vacinas não chegam todas no primeiro dia, mas vão chegando gradualmente ao longo de todo o ano”, explicou António Costa, que elogiou “a comunidade científica” por tornar possível em pouco mais de um ano aquilo que normalmente demoraria sete anos a ser realidade. “Esta foi a parte mais fácil. As dificuldades vão começar agora”, avisou.

A primeira fase vai decorrer em exclusivo nos locais onde habitualmente são administradas as vacinas do plano nacional, os centros de saúde
A primeira fase vai decorrer em exclusivo nos locais onde habitualmente são administradas as vacinas do plano nacional, os centros de saúde, aproveitando o treino e a experiência dos enfermeiros que aqui imunizam em cada ano milhares de crianças e jovens e administram também a vacina da gripe. Serão cerca de 1200 os pontos previstos (que deverão incluir as extensões de saúde). Numa fase subsequente, poderá ser necessário uma expansão da rede de pontos de vacinação, admitiu Francisco Ramos, sem adiantar mais detalhes.

16 mil vacinas por dia

Se o cenário mais optimista for cumprido e for possível vacinar as 950 mil pessoas da primeira fase até ao final de Fevereiro, significa que serão inoculadas, em média, por dia, 16 mil pessoas (contando com os fins-de-semana).

Nesta fase inicial, nos centros de saúde apenas serão imunizados os 400 mil cidadãos com doenças graves, mas o número não deverá implicar grandes dificuldades para as equipas, uma vez que em pouco mais de duas semanas foram aí imunizadas quase 1,5 milhões de pessoas contra a gripe, como já tinha frisado na quarta-feira ao PÚBLICO o presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar. Na segunda fase o processo será mais complicado, dado que serão mais de cinco milhões de doses e terão que ser os centros de saúde a fazer as marcações.

As equipas dos centros de saúde terão ainda que ir aos lares e unidades de cuidados continuados vacinar os residentes e os trabalhadores no caso de estes não terem recursos para este efeito. Já os profissionais de saúde e outros trabalhadores prioritários deverão ser vacinados “no âmbito dos serviços de saúde ocupacional respectivos ou de outros serviços de saúde próprios”.

 

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