Pedro Castro, strategic industrial buyer na Decathlon

Quer mudar a direção da sua carreira? Inspire-se na entrevista de Pedro Castro, um jovem empreendedor licenciado em microbiologia que, através de um MBA, redirecionou o seu percurso profissional para a gestão. Hoje trabalha na sede da Decathlon, em França.

Pedro Castro começou cedo no empreendedorismo.Criou a primeira start-up aos 25 anos, pouco tempo depois de ter terminado a licenciatura em microbiologia. A experiência de cinco anos enquanto fundador e gestor de um projeto levou-o a ingressar num MBA que lhe abriu portas para as funções que atualmente desempenha na sede da Decathlon, em França. A microbiologia ficou em stand by e deu lugar à gestão.

Há uma grande diferença entre a microbiologia e a gestão. O que é que o levou a dar este salto de fé para um novo percurso?
O mundo da gestão esteve sempre muito presente de forma mais empírica, mesmo durante a minha licenciatura em microbiologia. Sempre imaginei o potencial de utilizar o conhecimento científico e os inúmeros projetos que todos os anos são desenvolvidos na universidade, na criação de produtos e/ou serviços de valor acrescentado para as empresas, para as pessoas, para a sociedade em geral.

Acredito muito nesta ligação das empresas com as universidades. Vejo-a como uma parceria que, com a visão certa, objetivos claros e atitude empreendedora, pode ter um impacto muito significativo na criação de valor para a economia. Acima de tudo, de afirmação do talento e espírito de colaboração entre organizações com dinâmicas distintas, mas com propósitos sinérgicos.

Neste sentido, não considero que tenha sido um salto de fé, mas um assumir de forma categórica e focada aquilo que me parecia o caminho mais ligado à minha visão de carreira e talento inato.

Diria que o facto de ter começado uma start-up apoiou esta decisão?
A criação da start-up veio exatamente no sentido de colocar em prática, e de uma forma única, toda uma visão pessoal e profissional que tinha num projeto diferenciador, desafiante e com uma proposta de valor que na altura não existia. Além disso, permitiu-me planear, desenvolver e executar em áreas da gestão, como planeamento estratégico, marketing e vendas, negociação e criação de parcerias de negócio. Senti claramente que foi uma aposta ganha e veio confirmar a minha convicção de que seria na gestão que queria dar passos firmes na minha carreira e potenciar o meu talento.

“Tinha um drive muito forte para passar a colaborar com organizações com presença internacional e, acima de tudo, percebi que era altura de deixar o trabalho independente e fazer parte de um coletivo com um projecto de carreira ambicioso”.

Por norma, as possibilidades do nosso percurso profissional começam a ser afuniladas no secundário, quando ainda não explorámos o suficiente para perceber o que realmente queremos seguir. Cursos como o que fez na Porto Business School dão-nos a possibilidade de fazer uma mudança quando já somos mais maduros. No seu caso, como é que foi feita esta tomada de decisão?
O meu percurso profissional é um pouco diferente da maioria das pessoas que conheço e imagino que da média em Portugal. Terminei o curso e após três anos, aos 25 anos, estava a criar a minha própria empresa. Em 2010, fazia 30 anos, estava em fim de ciclo na minha empresa e já contava com inúmeras colaborações com diferentes organizações ao nível da consultoria, de forma independente, algo que fui desenvolvendo em paralelo. No entanto, tinha um drive muito forte para passar a colaborar com organizações com presença internacional e, acima de tudo, percebi que era altura de deixar o trabalho independente e fazer parte de um coletivo com um projecto de carreira ambicioso.

Nesse sentido, senti que era decisivo reforçar as minhas competências de gestão, numa primeira fase de um ponto de vista transversal e, mais tarde, num posicionamento específico focado nas áreas que ambicionava trabalhar. Foi aí que surgiu o Curso Geral de Gestão.

Que papel teve na sua capacitação profissional?
O curso permitiu-me entrar em contacto, de forma excecional, com um conjunto vasto de competências de gestão e também consolidar de uma forma estruturada, experiências empíricas em que estive envolvido na minha iniciativa empreendedora. Áreas como planeamento estratégico, política empresarial, supply chain, gestão de projetos, entre outras, foram um reforço decisivo na criação de convicções sólidas, perspetivas modernizadas e acima de tudo, uma visão simples e inspiradora da prática da gestão. Senti claramente que estava preparado para um novo passo na carreira, um passo ambicioso, mas com a preparação adequada e um plano focado.

“O primeiro ensinamento que retirei é a noção de resiliência que é necessária para criar um projecto do zero e conseguir ultrapassar as inúmeras dificuldades que vão aparecendo”.

Quais foram os grandes ensinamentos que o percurso empreendedor lhe trouxe?
O percurso empreendedor é de facto um poço de ensinamentos, reflexo das sensações desconhecidas experimentadas e das vivências transformadoras que se acumulam diariamente. O primeiro ensinamento que retirei é a noção de resiliência que é necessária para criar um projecto do zero e conseguir ultrapassar as inúmeras dificuldades que vão aparecendo. No meu caso, recorremos a concursos de empreendedorismo e iniciativas locais de emprego para podermos conseguir o financiamento necessário para iniciar a atividade.

Tanto eu como o meu sócio e cofundador éramos muito novos, tínhamos pouca experiência, mas tínhamos algo que era fundamental: ideias claras e uma motivação muito forte para conseguir colocar em prática o projecto. O segundo ensinamento reside exatamente aqui: na importância de sermos capazes de ter uma visão e um propósito muito claro e focado naquilo que fazemos e queremos para o futuro.

Um aspecto fundamental no meu quotidiano que este percurso me trouxe foi a capacidade rápida de adaptação ao nosso ambiente externo, a agilidade mental e emocional que é necessária para acompanhar as rápidas alterações no mundo profissional, como as mudanças no perfil dos consumidores ou colaboradores, as macro tendências mundiais, o balanço de competências de valor acrescentado que é cada vez mais dinâmico. Teria muitos outros para partilhar, mas esse é de facto o meu “top 3”.

“(…) um mindset de empreendedor é um bom ingrediente para uma progressão de carreira desafiante (…)”

Ter um mindset de empreendedor é uma mais-valia para a progressão de carreira e para encontrar soluções onde os outros só conseguem ver problemas?
Quando pensamos na palavra empreender conotamo-la diretamente com a noção “dar vida a algo” que possa criar valor, caso contrário é apenas uma criação. Se olharmos para a forma como conduzimos a nossa carreira profissional, encontramos muitas das mesmas questões que temos quando estamos a pensar num projecto empreendedor: qual é a minha visão de carreira, qual o propósito que tenho em mente, quais são os fatores de sucesso em que tenho de ser excelente, quais os principais obstáculos e como ultrapassá-los? Por isso, concordo que um mindset de empreendedor é um bom ingrediente para uma progressão de carreira desafiante, que possa implicar mudanças de direcção com risco significativo associado, e que, acima de tudo, permite encarar a adversidade como parte do desafio e não um bloqueio estanque nas aspirações de cada um.

Nesse sentido, quais são as mais-valias que um empreendedor pode trazer a uma grande empresa, como a Decathlon, por exemplo?
A Decathlon, apesar da larga expressão a nível mundial, é ainda uma empresa familiar, tendo sido fundada por um homem com uma capacidade empreendedora e visão empresarial excecionais. O ADN da empresa é muito apoiado numa cultura humana baseada na liberdade e responsabilidade, no projeto de cada colaborador assente na sua visão profissional, onde é promovida também uma rotação interna dos recursos humanos para dotar os mesmos e a empresa de novas perspetivas e abordagens nas diferentes posições. O facto de ser uma empresa presente em mais de 60 países, e de ter nos seus quadros 80 mil colaboradores, de múltiplas nacionalidades, implica uma grande dinâmica intercultural e a capacidade de manter um alinhamento estratégico muito forte para que todos contribuam para a concretização dos objetivos.

Esta organização precisa de pessoas com muita agilidade, capacidade de criar e executar projetos com impacto local e global, numa lógica de aprendizagem ativa e melhoria pessoal, para desenharem o seu plano de reforço de competências, procurando interna ou externamente o seu coach. Mais recentemente, a empresa conta até com muitos dos colaboradores para criarem os seus próprios projetos dentro da empresa, como a criação de novos desportos que esta ainda não comercializa e que possam coincidir com o sonho de um colaborador. A capacidade de arriscar e fazer diferente, apostando no trabalho colaborativo interno e com outras organizações, também é valorizado porque permite à empresa reinventar-se e ajustar-se a novos caminhos e processos para conseguir ter sucesso de forma sustentável.

Por todas estas razões, o perfil empreendedor é extremamente útil nesta organização como em qualquer outra grande empresa.

“Em França a base de tudo é um rigoroso planeamento, uma perspetiva mais focada nos resultados e menos nos meios (…)”

Quais são as diferenças mais flagrantes na forma como as empresas portuguesas e as francesas operam?
Eu diria que podemos categorizar estas diferenças em três grupos. O primeiro são as diferenças organizacionais. Por exemplo, em Portugal privilegiamos a flexibilidade, o trabalho cooperativo, em organizações menos estruturadas, mas complexas. Em França, a base de tudo é um rigoroso planeamento, uma perspetiva mais focada nos resultados e menos nos meios, onde a abordagem mais simples é a mais sofisticada. Não há tempo a perder.

O segundo são os aspetos culturais, sobretudo, o perfil das pessoas: em Portugal com maior abertura, equipas mais próximas no seu essencial, valorizam muito a relação interpessoal no seu todo (não só ao nível profissional). Nas empresas francesas há uma cultura de maior independência, de menos disponibilidade de entreajuda, de pessoas muito focadas e, por isso, menos flexíveis na abordagem interpessoal.

O terceiro está ligado à dinâmica do próprio país e à dimensão média das empresas: em Portugal o tecido empresarial é formado principalmente por pequenas e médias empresas, muitas com uma forte cultura familiar, num país que tem tradicionalmente dificuldades económico-financeiras, numa sociedade que valoriza muito o trabalho, mas com índices de produtividade ainda relativamente baixos.
França é uma das grandes potências económicas europeias, com empresas de vanguarda em setores estratégicos como a aviação, automóvel, comércio de produtos alimentares, entre outros. É um país que tem uma instabilidade política relevante, mas onde as principais instituições funcionam corretamente. A dimensão em que tudo acontece é maior, e daí também as oportunidades de escala e o carácter mais internacional da média das empresas.

Estes três fatores – organizacionais, culturais e de dinâmicas de país – fazem com que a experiência profissional nos dois países seja distinta, mas, em ambos os casos, sem dúvida que é enriquecedora.

Alguma vez se sentiu perdido, sem saber para onde rumar a seguir?
Eu não diria perdido, mas em alguns momentos tive dúvidas sobre qual o melhor caminho a seguir. Tive alguma dificuldade durante a escolaridade secundária para escolher a licenciatura que melhor respondia às minhas ambições profissionais. Depois na altura em que estava a ponderar se teria as condições necessárias para poder criar a minha própria empresa e, mais tarde, após ter decidido focar definitivamente a minha carreira na área da gestão, qual o domínio que me parecia mais adequado para concretizar essa mudança.

“É natural o medo de não conseguir, a pressão de falhar, mas se sentimos que é por ali, é porque é mesmo.”

Que conselhos daria às pessoas que pretendem mudar de área, mas que têm medo de, tal como o Pedro, dar este salto de fé e embarcar numa nova aventura?
O primeiro conselho que daria seria o de terem um propósito claro do porquê de fazer essa mudança. Isso será o principal guia numa altura de eventual adversidade. Fazer as perguntas certas, construir a preparação adequada e, finalmente, ter a coragem de seguir o nosso plano, são fatores fundamentais para se conseguir mudar com sucesso.

Um outro conselho que deixaria é para não o fazerem sozinhos, fazerem-se acompanhar por pessoas que possam ter um impacto positivo nesse novo caminho. Ter a direção certa é mais importante do que o destino exato até porque há variáveis que não podemos controlar. É natural o medo de não conseguir, a pressão de falhar, mas se sentimos que é por ali, é porque é mesmo.

Costuma dizer-se que o empreendedorismo é quase um “vírus” que, depois de se alojar, nunca mais desaparece. Nesse sentido, e partindo do princípio que ainda tem esse “vírus”, em que área vai ser a sua próxima start-up?
É verdade que no dia em que terminei a minha colaboração com a minha própria empresa, disse para mim próprio que este não seria o último projeto empreendedor da minha vida, mas apenas o primeiro. Partilho que tenho algumas ideias / projetos nesse sentido, mas para já é prematuro estar a adiantar o que quer que seja. Apenas posso referir que seria na área do desporto e tecnologias de interatividade com e entre os desportistas.

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