E a grande maioria das mulheres portuguesas sente-se exausta grande parte do tempo. Os dados são de uma investigação recente da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Com que regularidade se sente cansada? Está contente com o seu parceiro? Sente-se feliz com o trabalho atual? Dado o papel da mulher do século XXI na vida familiar e profissional, as perguntas colocadas vão ao encontro de algumas das maiores dificuldades que o sexo feminino enfrenta atualmente.

Estes e outros tópicos são detalhados numa investigação recente da Fundação Francisco Manuel dos Santos. De forma a celebrar o Dia Internacional da Mulher, partilhamos consigo algumas das conclusões mais importantes do estudo “As mulheres em Portugal, hoje”. Uma partilha importante não só para as mulheres, como também para os homens que querem aprender a apoiar melhor a sua parceira.

Objetivo e amostra
A ideia do estudo – coordenado por Laura Sagnier e Alex Morell – visa promover e aprofundar o conhecimento da realidade portuguesa, mas também contribuir para o desenvolvimento da sociedade e para o reforço dos direitos dos cidadãos.

No total, foi recolhida uma amostra de 2.428 entrevistas, número que representa cerca de 2,7 milhões de mulheres portuguesas entre os 18 e os 64 anos.

A vida profissional, o nível de escolaridade, o papel do parceiro e a felicidade geral do sexo feminino em Portugal foram alguns dos temas aprofundados.

Não se sente feliz no emprego atual? Não está sozinha.
Os dados do estudo são, de alguma forma, alarmantes. Indicam que 71% das mulheres tem um trabalho pago, mas que mais de metade (51%) dizem estar descontentes com a sua atual situação profissional. Saliente-se que 20% das inquiridas estão desempregadas, sendo que apenas metade está ativamente à procura de emprego. Apenas 2% das mulheres dizem nunca ter trabalhado e 7% ainda estão a estudar.

Em oposição a mais de metade das inquiridas que se sente descontente com o seu trabalho atual, apenas 31% das mulheres dizem estar felizes ou muito felizes com a função que desempenham, enquanto 18% estão no patamar “quase felizes”.

Das que têm um trabalho remunerado, 44% diz que o seu emprego está abaixo ou muito abaixo das suas expetativas, 37% afirma estar de acordo com aquilo que esperava e apenas 14% diz ter visto as suas expetativas superadas.

Segundo os investigadores, face aos resultados destes dois campos, “não se pode dizer que as mulheres se sintam particularmente realizadas com o trabalho pago, em Portugal”.

Tanto que o principal motivo para as pessoas trabalharem é mesmo o dinheiro. 36% das inquiridas dizem que não trabalhariam caso não precisarem dos rendimentos para viver. No extremo oposto, 23% das trabalhadoras demonstraram entusiasmo pelo seu trabalho, afirmando que o fariam mesmo que não necessitassem do dinheiro.

As mulheres que se sentem mais felizes com o trabalho são as proprietárias de algum negócio ou empresa, as chefes de departamento, diretoras ou membros de um conselho de administração, bem como as trabalhadoras independentes qualificadas.

Escolaridade prevê felicidade laboral
Uma outra conclusão do estudo indica que quanto mais alto for o nível de escolaridade, maior o entusiasmo com o trabalho. Isto é demonstrado por 30% das entrevistadas que completaram um mestrado ou doutoramento e que trabalhariam mesmo que não precisassem do dinheiro. Este número representa exatamente o dobro das mulheres que só têm o ensino básico (escolaridade até ao 9.º ano).

Neste tema, o estudo demonstra uma clara evolução na aposta na educação das mulheres na sociedade portuguesa. A informação indica que 84% das filhas apresenta um nível de escolaridade superior ao das respetivas mães.

A perceção de “trabalho ideal” vai evoluindo com a idade. A partir dos 28 anos é mais provável que as mulheres deem mais importância à possibilidade de conciliar bem a vida profissional e familiar.

A escolaridade e a idade são os dois parâmetros analisados nesta investigação que melhor determinam a vida das mulheres portuguesas. A idade devido aos desafios que vão enfrentando e a escolaridade por causa do conforto financeiro e da atitude perante a vida.

Grande maioria diz estar quase sempre demasiado cansada – os hábitos das mulheres
As pessoas mais bem-sucedidas são também as que têm uma maior predisposição para reservar uma hora por dia para ler e aprender. No que se refere a este hábito, 15% das mulheres dizem não ler livros fora do âmbito do trabalho ou dos estudos. Por outro lado, 37% refere ler um ou dois livros por ano, 32% dizem ler entre três a seis livros e 16% dizem ler mais de seis livros anualmente.

No que diz respeito ao desporto, mais de metade das inquiridas dizem praticar algum tipo de exercício físico pelo menos uma vez por semana. Neste domínio, só 20% dizem nunca praticar qualquer atividade deste género.

A grande maioria das mulheres refere que – sempre ou quase sempre – se sente demasiado cansada. Algo, que segundo os investigadores é compreensível devido ao escasso tempo de que dispõem para si nos dias úteis. Uma em cada dez mulheres diz tomar diariamente medicamentos para a ansiedade, distúrbios de sono ou antidepressivos.

Tarefas domésticas – mulheres continuam a fazer mais
Parte do cansaço sentido regularmente pelas mulheres pode ser explicado pela partilha desequilibrada das tarefas domésticas: em média, 74% destas são efetuadas pelas mulheres e 23% pelos homens. Isto significa que as mulheres suportam mais do triplo do trabalho que os respetivos companheiros. Apenas 15% têm algum tipo de ajuda remunerada para executar estas tarefas.

Só 30% dos casais representados pelo estudo mostram alguma simetria neste tema. Nos restantes 70% é o género feminino que lidera as lides domésticas.

Mulheres Portuguesas
Partilha de tarefas domésticas nos casais em que a mulher tem emprego (em %) (fonte: Estudo – “As mulheres em Portugal, hoje”)

Enquanto homem, o melhor que pode fazer para tornar a sua parceira feliz é…
O estudo indicou ainda os pontos mais relevantes que contribuem para a felicidade/ infelicidade das mulheres portuguesas. Nas relações entre mulher/homem, os quatro aspetos mais importantes que os homens devem considerar para fazer as mulheres felizes são:

– A participação ativa nas tarefas domésticas;
– A disponibilidade para a ouvir;
– A dedicação do máximo tempo possível;
– Carinho e atenção.

(Note-se que nenhum dos pontos se relaciona com a dimensão financeira)

Por outro lado, os três aspetos que mais contribuem para a infelicidade das mulheres são:

– Infidelidade;
– Falta de generosidade;
– Relações sexuais pouco satisfatórias.

Recomendações às mulheres portuguesas
Os investigadores deixaram também algumas recomendações às mulheres portuguesas. Segundo estes, é extremamente importante que:

– As pessoas tomem consciência das implicações que a incorporação do trabalho pago, do parceiro e dos filhos têm na sua vida;
– Que a sociedade e os poderes públicos compreendam a importância da escolaridade na vida das mulheres;
– A cooperação doméstica entre os casais seja fomentada;
– E que as empresas tracem estratégias que permitam minimizar as barreiras enfrentadas pelas mães e pelos pais que têm trabalho remunerado, sobretudo quando têm a seu cargo filhos menores.

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