Francisco Ferreira Pinto, administrador executivo da BusyAngels

Enquanto investidores “hands-on”, que procuram apoiar e acrescentar valor aos fundadores ao longo da relação, uma das nossas preocupações é avaliarmos regularmente a qualidade desse acompanhamento e como o podemos melhorar.

Se eu perguntar a diferentes fundadores quais as áreas em que procuram mais a nossa ajuda e colaboração diria que a maioria andaria em torno de: i) apoio estratégico e na gestão do negócio; ii) contactos e abertura de portas comerciais; iii) experiência e contactos em levantamento de novas rondas de capital e exits e; iv) identificação e apoio no recrutamento de elementos chave.

De entre todos estes requisitos, é precisamente na identificação e recrutamento de elementos chave que temos vindo a procurar continuamente encontrar novas soluções para podermos contribuir numa atividade chave na afirmação inicial da empresa. Tipicamente estamos a falar de empresas com poucos recursos e que não têm tempo nem dinheiro para poder falhar muitas vezes na identificação de novos elementos.

Neste âmbito, uma das iniciativas que temos vindo a desenvolver centra-se em procurar identificar alguns parceiros especialistas nesta área que possamos recomendar aos fundadores. Temos a noção que qualquer rede nossa será sempre menos abrangente que uma rede de parceiros dedicados e especializados. A nossa proposta de valor para estes parceiros também nos parece clara, ao dia de hoje na Busy Angels temos 25 start-ups no portfólio, a maioria em Portugal e Espanha, financiadas, com objetivos de crescimento muito ambiciosos, já com presença em múltiplas geografias e naturalmente com necessidades de recrutamento constantes (e em certos momentos com um volume de pedidos ao nível de grandes empresas já estabelecidas).

Diria que à partida seria fácil encontrar parceiros especializados interessados em colaborar com o nosso portefólio, mas a realidade é que na prática os resultados não têm sido assim tão imediatos.

Da experiência que vou recolhendo, e fazendo desde logo o disclaimer de ser o “ponto de vista do utilizador” em Portugal, identifico as seguintes razões para esta dificuldade:

Em primeiro lugar, o crescimento da economia e da confiança das empresas portuguesas aliadas à vinda massiva de empresas internacionais para Portugal nos últimos anos tem criado uma pressão positiva sobre o mercado laboral. A procura é muita e a oferta tem muito por onde escolher. Uma das consequências é que quem faz a intermediação tem cada vez mais atividade e pedidos a bater à porta vindos dos seus clientes habituais, um valor imediato a ser capturado. É terreno conhecido, mais simples de operacionalizar, paga melhor e tem mais economias de experiência. Uma proposta de valor difícil de combater.
Nos casos em que mesmo assim existe intenção e alocação de recursos internos para explorar este “mundo das start-ups” (como muitas vezes ouvimos), o que acabamos por verificar é que essa aposta é na maioria das situações ainda superficial. Procuram replicar os processos e modelos de negócio tradicionais que conhecem bem, nas start-ups. Não verificamos ainda um verdadeiro investimento em know-how específico da indústria, em conhecer por dentro como trabalham este tipo de empresas, os perfis que se encaixam na cultura e na dinâmica das empresas, quais as motivações quer da empresa quer das equipas (comprarem o sonho, ligação com o sucesso da empresa, …) e claro uma adaptação do próprio modelo de remuneração em linha com os recursos disponíveis (maior partilha de risco e aposta no sucesso mútuo futuro).
Vemos outras linhas de atividade, como escritórios de advogados ou empresas de consultoria, a realizar esta aposta e investimento específico neste setor, mas em recursos humanos ainda não conseguimos identificar essa tendência. No entanto, relembro o que referi no ponto anterior, o custo de oportunidade será hoje muito grande…
Por último, julgo que a (i)maturidade do ecossistema em Portugal também cria algumas barreiras à aposta nesta indústria. Ainda existe pouca experiência em muitos dos perfis pretendidos, tipicamente muito específicos, e que obrigam inclusivamente a procurar opções criativas noutras geografias. Por exemplo experiência em vendas software as a service, em SEO, growth hacking, marketing digital, blockchain (entre muitas outras), são ainda difíceis de encontrar em quantidade e qualidade em Portugal.
De qualquer forma, todos os problemas são oportunidades e julgo que uma especialização em recrutamento para start-ups tecnológicas seria uma grande mais-valia para o ecosistema. Cada vez mais temos vindo a conhecer start-ups que procuram revolucionar o sector de Recursos Humanos. Temos inclusive investido, no final de 2018, na Easy Virtual Fair, dedicada (por agora) a resolver o problema das feiras de emprego, tornando-as virtuais e acessíveis à distância de um clique. Pode ser que os convença a estudar mais aprofundadamente o problema e eventualmente poderão vir a endereçar esta oportunidade no futuro.

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