Os receios do impacto de uma segunda vaga e de infetar familiares são algumas das preocupações dos profissionais de saúde que estão na linha da frente do combate à covid-19 no hospital de Ponta Delgada.

A enfermeira Ana Simões trabalha nas urgência do Hospital do Divino Espírito Santo, na ilha de São Miguel, o maior dos Açores, que integra cerca de 60 enfermeiros.

Em declarações à agência Lusa explicou que, no serviço onde tratam os casos de contágio da covid-19, trabalham “dois profissionais de cada vez, realizando-se turnos de 20 horas, mas com quatro horas a trabalhar e outras quatro a descansar, rodando-se as equipas”.

“De cada vez, lá dentro com os doentes estão só dois enfermeiros, num processo desgastante, mas que foi a forma mais viável encontrada. Há que vestir o fato e todo o equipamento de proteção individual que, no final das quatro horas, é retirado, tomando-se banho de seguida, antes de nos alimentarmos e de descansar", explicou a profissional de saúde.

Os enfermeiros "voltam depois a vestir todo o equipamento para entrar outra vez”.

“Já entrei um dia às 08:00 e sai às 04:00 da madrugada do dia seguinte”, afirmou.

Ana Simões não esconde o desafio que é estar na linha da frente do combate à covid-19 em termos profissionais, mentais e psicológicos, considerando que os enfermeiros estão “constantemente expostos a situações de stress elevadas”, o que os torna “muito vulneráveis em termos sentimentais”, gerando situações de “medo e ansiedade”.

Para que o combate à pandemia seja mais eficaz, na perspetiva das necessidades do pessoal de enfermagem, Ana Simões refere que “é exigido um elevado nível de foco e concentração”, sublinhando que se trabalha, “muitas vezes, em situações adversas”, por turnos, onde estes profissionais “são poucos para as exigências e as necessidades”, sendo a “remuneração injusta”.

No entanto, considerou que os enfermeiros “têm que continuar a trabalhar” para fazer face a este cenário de pandemia, sendo necessário que os serviços hospitalares “consigam dar resposta em termos de material de proteção para se realizar um trabalho seguro”, a par de “condições de trabalho dignas” e de apoio emocional.

A profissional de enfermagem, apesar de salvaguardar que Portugal “deu uma boa resposta” no combate à pandemia, sendo “apontado como exemplo de um país que conseguiu segurar o sistema de saúde e responder às necessidades”, teme por uma segunda vaga do surto “muito mais complicada do que a primeira”.

“Eu acho que o que se deveria fazer, no caso do Hospital de Ponta Delgada, era tentar perceber quais as falhas que possam ter existido na primeira fase da pandemia, tentar corrigir para que, da próxima vez, as coisas corram um pouco melhor”, defendeu Ana Simões.

A médica Manuela Henrique, que presta serviço nos cuidados intensivos da covid-19 do Hospital do Divino Espírito Santo, disse à Lusa que, apesar de uma “equipa motivada no sentido de dar a melhor resposta possível”, houve “receios em relação à saúde” e aos familiares face a um potencial contágio.

Manuela Henrique defende que se “deve manter a organização criada” para fazer face à pandemia, no combate a uma eventual segunda vaga, e recordou que, neste momento, é realizada uma pré-triagem e triagem no serviço de urgência do hospital, onde existe uma zona em que ficam os potenciais casos suspeitos de infeção, promovendo-se uma separação de serviços para “evitar uma propagação”.

Há ainda um rastreio que é realizado a todos os que estão internados no hospital, havendo um novo teste quando estes pacientes recebem alta, mesmo aos que seguem para instituições, como lares.

A médica considera que o que a marcou mais na linha da frente do combate à covid-19 foi a "capacidade de adaptação" dos colegas e a "motivação demonstrada", com muitos profissionais a "trabalharem fora da sua zona de conforto".

"Muitos profissionais" privaram-se de estar com as famílias, mas essa não foi a opção de Manuela Henrique porque o seu marido não tem qualquer critério de risco.

Por isso, tem ido a casa, onde visita a sua filha também, mas cumpre "todas as regras", deixando a sua roupa à entrada do hospital, bem como de casa, no regresso, mantendo "o distanciamento possível".

Os Açores não registaram nas últimas 24 horas novos casos positivos de covid-19, mantendo a região um total de 145 casos de infeção, anunciou a Autoridade de Saúde Regional.

Até ao momento, já foram detetados no arquipélago um total de 145 casos de infeção, verificando-se 91 recuperados, 16 óbitos e 38 casos positivos ativos para infeção pelo novo coronavírus SARS-CoV-2, que causa a doença covid-19.

Portugal contabiliza hoje 1.184 mortos associados à covid-19 em 28.319 casos confirmados de infeção, segundo o último boletim diário da Direção-Geral da Saúde (DGS) sobre a pandemia.

Relativamente a terça-feira, há mais 9 mortos (+0,8%) e mais 187 casos de infeção (+0,7%).

 

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