O secretário regional da Agricultura dos Açores, António Ventura, justificou hoje a participação num evento tauromáquico na ilha Terceira, sem uso de máscara e distanciamento social, com as particularidades deste tipo de eventos.

“Há que perceber que aquela atividade é muito específica. Há um conjunto de pessoas que quase diariamente convive entre si, porque o maneio do gado bravo tem voluntários e tem os próprios ganadeiros. As pessoas juntam-se para fazer o maneio do gado bravo, há uma comunidade quase como uma família que diariamente se encontra para este maneio”, afirmou, em declarações aos jornalistas, à margem da assinatura de um protocolo com a cooperativa Bio Azórica.

Na semana passada, o BE/Açores divulgou um vídeo em que é possível ver o secretário regional da Agricultura e Desenvolvimento Rural e o diretor regional da Cultura, do executivo da coligação PSD/CDS/PPM, num evento tauromáquico, na ilha Terceira, com dezenas de pessoas, sem cumprirem as regras de contenção da covid-19, como o uso de máscara e o distanciamento social.

Num requerimento enviado à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, os deputados do BE, António Lima e Alexandra Manes, perguntaram se o presidente do Governo Regional, José Manuel Bolieiro (PSD), "teve conhecimento do incumprimento das medidas obrigatórias por parte do secretário regional da Agricultura e do diretor regional da Cultura", e "que diligências tomará" o executivo "no sentido de evitar que esta situação se repita em ocasiões futuras".

"Está ainda em vigor a obrigação de utilização de máscara na via pública sempre que o distanciamento físico recomendado pelas autoridades de saúde regionais se mostre impraticável", salientaram, em comunicado de imprensa, alegando que "os membros do Governo não podem aparecer em vídeos de sensibilização para cumprimento de regras sanitárias num dia e no dia seguinte participar em eventos sem cumprir estas mesmas regras".

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Confrontado hoje com estas acusações, António Ventura disse ter dúvidas sobre a “verdadeira intenção do Bloco de Esquerda”.

“Se estivesse muito preocupado com essa eventualidade de cumprimento das regras, tinha logo no dia a seguir levantado a questão, mas não, foi passado duas semanas. Isso significa que o objeto não é a máscara, mas efetivamente a tauromaquia e a atividade tauromáquica”, acusou.

Segundo o titular da pasta da Agricultura, “cerca de 50% das pessoas” que participaram no evento “têm um convívio diário no maneio do gado bravo” e em algumas situações não era possível utilizar máscara.

“Esse tipo de evento é acompanhado de comes e bebes. Há duas mesas centrais de comes e bebes. Quando se come e quando se bebe, tira-se a máscara”, justificou.

O evento tinha como propósito a ferra de touros, para identificação dos animais, que segundo António Ventura deverá ser substituída por outro método, até 2023.

“Iniciámos um projeto piloto na Terceira, mas extensível a todas as ganadarias para a substituição da marca a fogo para a marca a azoto. É uma marca que não provoca dor, provoca menos 'stress' e permite ter a mesma visibilidade de marcação”, indicou.

Questionado na semana passada sobre o requerimento do Bloco de Esquerda, o secretário regional da Saúde e Desporto dos Açores disse que as regras de contenção da covid-19 eram aplicáveis “a todos os cidadãos, independentemente do cargo que ocupam”.

“Não estive presente em nenhum desses eventos, por isso não me posso pronunciar sobre aquilo que alegadamente é referido. A posição da Secretaria Regional da Saúde e Deporto e da Autoridade de Saúde é no sentido de mantermos o cumprimento das regras de comportamento individual na relação com os outros”, adiantou.

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