Deixada para trás pelo marido, que voou para parte incerta em fuga à justiça, Maria de Jesus Rendeiro, a mulher de quem todos falam, tornou-se a protagonista de uma novela com todos os ingredientes para um guião bem suculento: obras de arte à sua guarda desaparecidas - umas escondidas dentro de um carro. Outras falsificadas. Outras vendidas em leiloeiras internacionais com pergaminhos, como a Christie's.

Um filme que ainda só vai na parte em que a inocente afinal é suspeita e fica presa na mansão. Mas é para continuar...

Cúmplice ou vítima? As opiniões sobre Maria de Jesus da Silva de Matos Rendeiro, de 69 anos, a mulher do mediático banqueiro João Rendeiro em fuga em parte incerta, dividem-se e geraram, nos últimos dias, os mais inflamados comentários às notícias vindas a lume nas televisões e na imprensa e às publicadas nas redes sociais.

Depois de ter sido visitada e levada pelos investigadores do Ministério Público e pela PJ ao final da manhã da passada quarta-feira, dia 3; de ter sido obrigada a dormir numa cela no Estabelecimento Prisional de Tires; e de ter sido presente à juíza Catarina Pires, no dia seguinte, 4, eis que a milionária, de quem todos falam, acabou em prisão domiciliária, com pulseira no tornozelo, na mansão de luxo onde vive o casal na exclusiva Quinta Patiño, em Cascais.

Maria de Jesus foi inicialmente acusada de descaminho de algumas obras de arte que estavam ao seu cuidado. Teria, inclusive, algumas delas escondidas na bagageira de um carro, segundo revelaram as autoridades. Mas quinta-feira, dia 4, depois de ter sido presente a tribunal, acabou suspeita de estar envolvida no alegado esquema de branqueamento de capitais construído pelo marido, João Rendeiro, em fuga à justiça desde finais de setembro deste ano.

PROVAS EM PERIGO

Habituada a uma vida de sonho na mansão de luxo que o casal construiu num dos mais exclusivos condomínios da Costa do Estoril, Maria de Jesus Rendeiro fica agora em prisão domiciliária com pulseira eletrónica, por suspeitas de branqueamento de capitais, de descaminho de obras de arte e de desobediência à justiça.

A juíza de instrução Catarina Pires decidiu aplicar à agora arguida, habituada a pulseiras, mas antes da marca Cartier, uma medida de privação de liberdade por considerar existir "perigo de fuga" e "perigo de perturbação do decurso do inquérito", nomeadamente "para a aquisição, conservação e veracidade da prova e perigo de continuação de atividade criminosa".

Além de presa em casa com pulseira eletrónica, Maria de Jesus Rendeiro será vigiada por militares da GNR 24 sobre 24 horas e está proibida de contactar com Florêncio Almeida, presidente da ANTRAL e famoso "Rei dos Táxis", e com o filho deste, também de sua graça Florêncio.

O DESAPARECIMENTO DAS OBRAS

O Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) deu início a um processo de investigação paralelo àqueles em que João Rendeiro foi, primeiro indiciado, acusado e depois condenado em vários processos em tribunal, e que levou à falência, crê a justiça fraudulenta, do Banco Privado Português (BPP).

Agora, a novidade é que Maria de Jesus Rendeiro terá sido conivente, e ajudado o marido em fuga, num alegado esquema de branqueamento de capitais. Os investigadores deram oportunidade à mulher de João Rendeiro de explicar o "sumiço" de obras de umas obra de arte o porquê da falsificação de outras e a senhora meteu os pés pelas mãos nas explicações.

Compreensível: a casa é grande, as 124 obras de arte que tinham vindo da sede do extinto BPP estavam misturadas com as que o casal já tinha em casa e isso gerou a confusão. Ou não... E os investigadores suspeitaram que a fiel depositária lhes estava a "vender" lebre por coelho.

PUB

CONTINUAR A LER

CHORADEIRA NA BARRA

Em simultâneo, não fosse "o Diabo tecê-las", um juiz decretou que as comunicações de Maria de Jesus fossem colocadas em escuta, pois as movimentações eram assaz suspeitas. A mulher do ex-banqueiro já tinha sido interrogada na passada sexta-feira, dia 29 de outubro, pelo tribunal. E como só chorava e não falava, foi mandada para casa, com obrigação de uma avaliação psicológica.

Maria de Jesus tinha falhado o prazo de entrega de 15 obras de arte apreendidas em 2010 que estavam à sua guarda. Só que, nem ela, nem os três canídeos que têm em casa, conseguiram garantir o não desaparecimento dos bens móveis.

Esta história do banqueiro em fuga que deixou a mulher a tomar conta da coleção de arte, que agora está a deliciar Portugal e a colar os portugueses aos ecrãs de televisão, tem onze anos. Onze anos em que a justiça confiou na boa-fé da mulher do banqueiro – não nele – e lhe entregou mais de 120 obras de artes que seriam a boia de salvação dos lesados do banco de investimento que o marido levou à falência em finais de 2008.

Onze anos depois, João Rendeiro foi condenado a 10 anos de prisão por crimes de fraude fiscal qualificada, abuso de confiança qualificado e branqueamento e foi determinada, pelo tribunal, "a perda a favor do Estado dos bens colocados à guarda da fiel depositária" – Maria de Jesus Rendeiro, para eventual pagamento de indemnizações.

O arguido recorreu das sentenças, mas o mês de setembro foi-lhe fatal e já não havia fuga possível. A 29 de setembro, dois dias antes de serem reavaliadas as suas medidas de coação, João Rendeiro tornou público um comunicado onde dizia que tinha saído de Portugal e que não tencionava regressar, fugindo assim à justiça.

A fuga do ex-banqueiro, deixando a mulher pendurada em Portugal, fez disparar os alarmes judiciais e a juíza Tânia Loureiro Gomes tomou disposições: "Na sequência da confessada fuga do arguido revelar-se prudente conhecer o estado em que se encontravam os objetos colocados à guarda da fiel depositária", considerando que um cidadão que não respeita a ação da Justiça "tentaria certamente que também os aspetos patrimoniais da sua condenação não obtivessem efeito útil".

Ainda segundo o tribunal, o comportamento da (in)fiel depositária Maria de Jesus é "especialmente censurável", considerando que "nenhuma dúvida se coloca, face às regras normais da experiência, quanto ao pleno conhecimento [dela] quer das falsificações de, pelo menos, quatro dos objetos apreendidos, quer da colocação em parte incerta dos que permanecem em falta".

ATÉ QUE A FUGA NOS SEPARE

O ex-banqueiro falido João Rendeiro, de 69 anos, fugiu da Europa num jacto privado, no final de setembro, para destino incerto, para não cumprir uma primeira pena de 5 anos e meio de prisão efetiva, depois de ter sido condenado num processo pela prática de vários crimes de falsificação informática e de falsificação de documento.

Rendeiro fugiu, mas deixou uma carta a explicar as razões porque se recusava a entregar-se à justiça. Para trás deixou, pendurada, com todos estes problemas no colo, Maria de Jesus, a mulher a quem fez juras de fidelidade e amor eterno há 49 anos, a 8 de agosto de 1972, em frente às famílias e amigos de ambos, na igreja paroquial de Santa Maria da Murtosa, arredores de Aveiro, a terra natal dela e a terra de origem dos pais dele.

MAS QUE RELAÇÃO É ESTA?

Depois de muitas adversidades e sacrifícios, o casal singrou na vida e isso permitiu que, em 1999, ela deixa-se o seu emprego na Lusol, onde era secretária administrativa de Manuel Alfredo de Melo, filho de Jorge de Melo, o homem forte do Grupo CUF.

O casal não teve filhos e Maria de Jesus passou a acompanhar João Rendeiro em várias viagens de negócios pelo mundo, tratando da logística, ao mesmo tempo que funcionava como olheira de obras de artes para a coleção de arte particular que o casal estava a congregar, para ter na mansão e na sede do banco, em Lisboa.

Sem herdeiros diretos, João Rendeiro reflete na sua biografia autorizada sobre o futuro da sua então grandiosa fortuna, hoje reduzida a divídas aos credores. "Quero assegurar, em qualquer circunstância, uma situação confortável para a Maria e ajudar um pouco os sobrinhos, sobretudo os que pretendam singrar nos estudos. O grosso do meu património será doado à sociedade e não herdado pela família. Tenho a convicção de que não faz sentido dar a terceiros toda a criação de valor que acumulei ao longo dos anos", remata João Rendeiro, a páginas tantas, no livro escrito pela jornalista Myriam Gaspar.

 

Pin It

Angra do Heroísmo

Ilha Terceira

Startups

Economia

Notícias Regionais

Outras Notícias

Saúde

Sociedade

Mundo

Tecnologia

Cultura

Desporto