Passaram 23 anos desde o desaparecimento de Rui Pedro, mas Filomena ainda mantém a esperança de reencontrar o filho, com vida. Com a estreia de 'Sombra' nas salas de cinema portuguesas, este filme, inspirado em fatos reais, traz para a atualidade dramas tão trágicos como aqueles que são vividos pelas famílias de crianças desaparecidas.

Um a cada dois minutos há uma criança que é dada como desaparecida no Mundo. Em Portugal, no ano passado, ano de pandemia, desapareceram mais de 1.100 crianças. Os números são avançados pela presidente da Associação Portuguesa de Crianças Desaparecidas, Patrícia Cipriano, e incluem crianças dos zero aos 18 anos.

Esta semana chegou às salas de cinema portuguesas, 'Sombra', filme já premiado do realizador português Bruno Gascon e que retrata a história de uma criança, de 11 anos, que desapareceu sem deixar rasto. A mesma idade que tinha Rui Pedro quando, em 1998, em Lousada, foi dado como desaparecido.

Passaram 23 anos e a mãe, Filomena Teixeira, continua à procura de respostas sobre o desaparecimento do filho.

Ela foi uma das pessoas com quem o realizador falou para se inspirar para este filme que já arrecadou prémios e que pode ainda vir a ganhar mais já nas próximas semanas. Bruno Gascon encontra-se entre os três nomeados ao Prémio de Melhor Realizador e a protagonista, a atriz Ana Moreira, está nomeada para o prémio de Melhor Performance no Raindance Film Festival, um dos maiores festivais de cinema independente no Reino Unido, que se realiza de 27 de outubro a 6 de novembro.

"O desaparecimento de um filho é contra natura"

FILME INSPIRA-SE NA HISTÓRIA DE RUI PEDRO

"É muito exaustivo para mim", justifica Filomena, explicando à FLASH! que por isso, e por ocasião da estreia do filme, apenas deu uma entrevista a um semanário e a uma televisão. Nessa entrevista, a mãe de Rui Pedro, apesar das mais de duas décadas que já passaram, deixou claro que não desiste: "Tenho esperança ainda, pode parecer maluquice, mas tenho esperança ainda que ele esteja vivo em algum lado", confessou salientando: "Jamais desistirei. É uma luta para a vida".

Filomena alerta que há tantos outros casos que caíram no esquecimento e recorda também que há à data do desaparecimento do filho "a polícia judiciária não estava preparada". "O desaparecimento de um filho é contra natura porque ninguém sabe o que lhes aconteceu", refere esta mãe. Com a estreia de 'Sombra' esta semana, Filomena reconhece ainda à FLASH!: "o filme é uma história fictícia não é a história que aconteceu comigo, não é o relato. É inspirada, tem alguns pontos em comum".

"Neste filme conto a história de uma mãe que, apesar de todos os obstáculos que encontra, não aceita desistir de lutar para encontrar o seu filho de 11 anos, que desapareceu de forma misteriosa. O filme segue a história desta mulher e da sua família ao longo de quatro anos diferentes: 1998, 2004, 2011 e 2013", explicou o realizador a uma publicação.

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"Não queria morrer sem saber do meu filho"

Ao longo destes 23 anos, Filomena foi fazendo vários apelos e aos olhos da opinião pública foi sendo também claro como esta mulher se foi tornando uma sombra daquilo que era. "Estes anos foram de muita luta, continuam a ser de muita luta, mas principalmente de muita resistência. Luto para resistir e não esmorecer perante as adversidades e as adversidades são muitas, muitas", revelou em 2019 numa entrevista dada durante o lançamento do livro de Manuela Eanes, responsável pelo Instituto do Apoio à Criança e que desde o início disponibilizou toda a sua ajuda para o caso.

"É uma luta diária. Costumo dizer que me levanto e digo: É mais um dia, vamos ver como é que ele vai decorrer", referiu na mesma ocasião. Para enfrentar este sofrimento que a acompanha desde aquela tarde fatídica de 4 de março de 1998, Filomena reconheceu ainda que conta com apoio psicológico e que recorre diariamente a medicação: "Continuo a ter esse acompanhamento, infelizmente ainda preciso disso e vou continuar a precisar o resto da minha vida, se ele não aparecer entretanto. Não queria morrer sem saber do meu filho".

A "MORTE" DE RUI PEDRO

Tal como Ricardo Sá Fernandes, o advogado da família de Rui Pedro, Felícia Cabrita acredita que o filho de Filomena terá morrido. "Passados estes anos todos, com a publicidade que houve à volta do caso, mesmo que ele tenha integrado uma rede, alguém terá receado e eliminado a criança", explica a jornalista à FLASH!, salientando por isso a importância de Filomena Teixeira ter um corpo para chorar. "É sempre difícil uma mãe fazer um luto mas deixar um filho partir sem nada saber, sem um corpo é muito complicado. Fazendo um luto de um filho, sabendo onde ele está, pode ajudar a continuar", adianta Felícia Cabrita que ao longo destes anos não só acompanhou o processo como conhece a mãe de Rui Pedro.

"Estes anos todos desgastaram-na muito. De certa forma, não foi só o Rui Pedro que morreu. Foi uma família inteira" garante, lembrando a forma como o processo foi levado ao longo de mais de duas décadas: "A Filomena foi altamente explorada pela polícia e pela população em geral. Foi enganada por alguma polícia. Chegou mesmo a ser acusada de ter culpa no desaparecimento do filho pela população. Houveram mesmo rumores da mãe do Rui Pedro ter um caso com o raptor. Houve uma suspeição latente da parte dos seus. Ao longo dos anos, Filomena recebeu telefonemas duríssimos. Passou por situações muito dolorosas, de requintada maldade". Como é que se sobrevive a uma situação destas? "Ela é uma sombra da vida, porque da vida pouco lhe resta. Ela não vive", diz Felícia reafirmando: "É difícil deixar um filho partir e quando não há corpo fica tudo ainda muito mais difícil. Ela nunca terá sossego".

"Não foi só o Rui Pedro que morreu. Foi uma família inteira"

Pouco há a fazer para atenuar o sofrimento de Filomena, contudo Felícia reitera a importância de se esgotarem recursos. "Acho que qualquer cidadão tem o direito de saber o que aconteceu com os seus. Não há corpo e devia haver um esforço para se descobrir o que se passou com o Rui Pedro, porque um corpo também diz muito", diz, explicando que se houver uma nova pista o processo reabre, Contudo, lembra "há uma pessoa que já cumpriu pena e não se pode cumprir pena duas vezes pelo mesmo crime."

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