Aos 63 anos, a Fá das 'Doce' recorda com saudade os tempos 'loucos' da banda a que pertenceu e fez furor nos anos 80. Com a chegada aos cinemas de 'Bem Bom', a ex mulher de Pedro Passos Coelho, revela que a história está longe da realidade que viveram

Fátima Padinha, a Fá das 'Doce' tem hoje 63 anos e é mãe de Joana, de 33, e Catarina, de 28, fruto do seu casamento terminado, há 18, com o ex primeiro ministro Pedro Passos Coelho.

Com a estreia do filme 'Bem Bom', Fátima viaja ao tempo em que percorreu o país e o Mundo e partilha alguns momentos desses anos de provocação e sensualidade.

O FILME E A REALIDADE

Quais são as suas impressões sobre o filme 'Bem Bom'?
As 'Doce' não eram assim. Aquilo é uma fantasia, não é a nossa história, é pura ficção. Há certos pormenores que introduziram para ligação de quadros mas aquilo não é a história das 'Doce'.

E o que achou da Fá, a personagem interpretada pela atriz Bárbara Branco e que a retrata?
A Bárbara é uma excelente atriz... mas eu não era assim. É pura ficção. Não era uma pessoa reivindicativa, não era intolerante, nem arrogante. Nunca diria na vida: "Eu sou uma profissional e não canto com amadores". Fiquei muito triste com esta frase. Mostra ali uma Fátima Padinha que não sou eu.

Então?
Posso ser reivindicativa, intolerante aos 60 anos, agora com 20 não era de certeza absoluta. Com 20 anos era uma adolescente feliz. De vez em quando podia dizer as minhas verdades, mas era uma pessoa otimista. Aquilo está profundamente errado! Se me disserem: mas utilizámos a personagem da Fátima Padinha para demonstrar uma certa força de reivindicação das mulheres, ok, isso aceito. Agora não me digam que sou assim, porque não era assim.

Lia Carvalho, Bárbara Branco e Carolina Carvalho no filme 'Bem Bom', que retrata a vida das DoceFoto: dr
Mas gostou do filme?
(Silêncio) Gostava de lhe dizer que era um 'nim'. Mas quero dizer duas coisas boas do filme: primeiro é um filme com ação, prende a atenção. A realizadora nisso é muito feliz. Conseguiu captar a atenção na sua forma de realizar. Estamos habituados muito aos filmes portugueses serem monótonos, com imagens paradas, com diálogos muito lentos, com a câmara fixada numa cara. E a outra é que geralmente o som nos filmes portugueses era sempre muito dificiente, captavam sempre muito mal os diálogos, se faziam exteriores entrava o vento pelo microfone adentro. E ali não. Ouve-se lindamente o que cada um diz. Agora as pessoas que não fiquem com a ideia de que aquilo eram as 'Doce', porque não eram.

"Nunca diria na vida: 'Eu sou uma profissional e não canto com amadores'. Fiquei muito triste com esta frase."

Já teve oportunidade de falar com as outras ‘Doce’ e trocar impressões sobre o filme?
Não, ainda não.

O que é que faltou no filme para se ver retratada a si e ao grupo?
A história está ficcionada. É um romance interpretado sobre as 'Doce' mas não é a nossa história.

MÁGOAS, PROVOCAÇÕES E SEXO

Passaram mais de três décadas desde o fim das Doce até este filme. Traz saudosismo pela época que viveu?
Ai sim! Uma pessoa chega aos 60 anos e tem saudades dos 20. Repare, ando há 20 anos a dizer que não deram valor às 'Doce'. Nós não passamos na rádio. As rádios e os programas que passam música dos anos 80 não passam as 'Doce' não porquê? Parece que há um conluio para apagar as 'Doce'. Pelo silêncio, pela indiferença, nós vamos sendo apagadas da História. E o clímax disto foi em 2018, terem feito uma homenagem [a RTP] e nenhuma de nós ter sido convidada a estar naquele festival da canção. Nem sequer uma fotografia nossa puseram. Não me lixem. Agora este filme - com a história verdadeira ou não, isso não interessa - veio outra vez dar o grupo ao conhecimento.

LEIA TAMBÉM
Tozé Brito explica como surgiu o rumor que envolveu Laura Diogo das Doce e Reinaldo do Benfica
Tozé Brito explica como surgiu o rumor que envolveu Laura Diogo das Doce e Reinaldo do Benfica

Fez-se justiça às Doce?

Ainda no outro dia ouvi uns garotos a cantar o ‘Amanhã de Manhã’, miúdos com sete e oito anos. É extraordinário! Andam por aí a dizer que o povo português não nos mereceu. Para mim sempre nos mereceu e sempre nos acarinhou. O público, aquele que nos ia ver e comprava os nossos discos passou esse entendimento para os filhos e se calhar para os netos. Agora há uma elite cultural que despreza as 'Doce'. Já desprezava naquela altura, tinham 20 ou 30 anos e agora estão, com 60, continuam a desprezar-nos e continuamos a ser uma pedra no sapato dessas pessoas.

Isso magoa?
Magoa há muito tempo. Já magoava na altura. Já naquela altura tentavam silenciar-nos. Ou inventando boatos ou com entrevistas mal intencionadas.

Antestreia de 'Bem Bom' reúne namorado de Bárbara Branco e a família de Carolina Carvalho

É já dia 8 de julho que o aguardado filme chega às salas de cinema. E ninguém vai querer perder pitada. Veja as imagens da antestreia.

E com a distância dos anos consegue perceber por que é que isso poderá ter acontecido?
O país não estava preparado, que era bastante ortodoxo. Tínhamos saído há cinco, seis anos da revolução de abril e as pessoas gostavam muito das músicas de intervenção, o rock era muito bem aceite. De repente, quatro mulheres que se dizem independentes, que fazem o seu caminho, que mexem com as mentalidades, dão o exemplo para que a mulher se possa libertar, ter o seu lugar na sociedade - porque as mulheres, naquela altura, eram dominadas. As mulheres ainda casavam virgens, ainda era um tabu falar-se sobre sexo e nós abalámos com essa estrutura social, cultural. Há muita gente que não nos perdoa... se calhar ainda hoje. Agora, somos conotadas como pimba…isso é não saber o que as 'Doce' cantaram. O repertório do grupo nada tem a ver com pimba.

Diz-se que o grupo "escandalizou" o país. Sente que desafiava quem a rodeava com as suas atuações?
O propósito não era escandalizar, era provocar. É diferente. Como é diferente a sensualidade da pornografia. Houve uma escritora, a Maria Teresa Horta, que disse que as 'Doce' quando foram em 1981 ao Festival da Canção eram mais pornográficas que as senhoras do Cais do Sodré. Divertia-nos, por exemplo, que as mulheres obrigassem os maridos a passar os espetáculos a olhar para baixo, elas davam cotoveladas aos maridos para os maridos não levantarem os olhos, tinham ciúmes. Nós achávamos isso muito divertido. Tínhamos um grande sentido de humor. As 'Doce' eram a sensualidade e não a pornografia. Nós tentávamos e conseguimos, de alguma maneira, alimentar a fantasia. Dando sem dar, mostrando pouco e imaginando o resto. Isso é burlesco. A intenção era provocar a imaginação das pessoas. Tenho muita pena que não haja nenhum espetáculo gravado das 'Doce' ao vivo... Era sempre muito divertido, nós éramos realmente boas em palco. Púnhamos as pessoas bem dispostas. As músicas eram fundamentais, mas depois tínhamos também as danças, e o que as pessoas viam na sua "terrinha" a 300 quilómetros de Lisboa era o que viam na televisão, e isso era sempre reconfortante porque se sentiam-se satisfeitas.

"Divertia-nos, por exemplo, que as mulheres obrigassem os maridos a passar os espetáculos a olhar para baixo"

Foi muito assediada?
Hoje em dia assediada tem uma conotação que não tinha naquela altura. Para mim, assediada, naquela altur,a era as pessoas querem-nos conhecer, pedir autógrafos, muitas vezes até tentar mexer. Assediada no sentido sexual, isso nunca fui.

PUB

CONTINUAR A LER


"Ó BOA! Ó DOCE!"

Nunca nenhum fã a pediu em namoro ou em casamento?
Não. As pessoas tinham um certo respeito, um certo distanciamento. Até podiam dizer de longe: "ó boa!, ó doce!". Mas era uma coisa muito anónima. Agora dirigirem-se a mim e dizerem quero namorar consigo ou quero ir para a cama consigo não. Nunca! Podiam dizer por trás que nós éramos uma prostitutas, que éramos amaldiçoadas ou umas levianas. Na nossa frente nunca. Portugal não era assim. Hoje em dia os valores que se dão a certas palavras não são os valores que se davam às palavras há 40 anos e por isso é que é preciso pôr Portugal no contexto de há 40 anos.

Ganhou ou perdeu mais com esta experiência nas Doce?
Ganhei. Nem que seja por ter conhecido o Mundo. Naquela altura, mais valia fazer uma viagem a Barcelona ou a Paris do que muitas vezes tirar o 12.º ano. As pessoas tinham mais cultura, abriam mais os olhos, mais a cabeça porque viam o que estava lá fora. Havia mais mundo para além da nossa "quintinha". Esta mediocridade, inveja que é muitas vezes caraterística do povo português.

FONTE: FLASH

Pin It

Angra do Heroísmo

Ilha Terceira

Startups

Economia

Notícias Regionais

Outras Notícias

Saúde

Sociedade

Mundo

Tecnologia

Cultura

Desporto

Podcast