O Chelsea anunciou esta terça-feira a morte de John Mortimore, com 86 anos, treinador que passou pelo Benfica nos anos 70 e 80. O Southampton, clube de que foi presidente, partilhou também nota de pesar. O treinador inglês orientou o Benfica durante cinco temporadas, mas em alturas diferentes: entre 1976 e 1979, depois entre 1985 e 1987.

Foi campeão logo na época 1976/77 e depois também em 1986/87, vencendo ainda duas taças de Portugal e uma Supertaça. Ao serviço dos encarnados apresenta o registo de 139 vitórias, 42 empates e 22 derrotas em 203 encontros.

Mortimore, um técnico sem grande currículo que substituía o campeão Mário Wilson, é visto na primeira passagem pela Luz como um capricho do então presidente Borges Coutinho. O início é titubeante, com o primeiro triunfo a surgir apenas à quarta jornada, diante do Académico de Viseu, depois de uma derrota expressiva em Alvalade (3-0) e dois empates frente a SC Braga (2-2) e Estoril (1-1). Face aos pobres resultados, os encarnados chegam mesmo a organizar uma Assembleia Geral Extraordinária para serem concedidos poderes à direção para contratar jogadores estrangeiros, pedido negado pelos sócios. O Benfica perde em Setúbal e desce ao 13.º lugar, mas a partir daí consegue uma recuperação espantosa, com 22 vitórias e dois empates, um dos quais diante do Beira-Mar de... Eusébio, e conquista o título (o tricampeonato) com nove pontos de avanço sobre o Sporting. Nas outras provas já não tem tanto sucesso. É eliminado pelos leões da Taça novamente por 3-0 e na Taça dos Campeões Europeus vê-se afastado pelo Dínamo Dresden na primeira eliminatória (2-0 e 0-0).

Na segunda época, as águias falham a conquista de qualquer título, algo que não acontecia desde 1974, apesar das contratações de Humberto Coelho, regressado do PSG, Diamantino, Rui Lopes e Celso. O tetra benfiquista é evitado por um FC Porto renascido às mãos de José Maria Pedroto e Pinto da Costa, sem que os encarnados percam qualquer jogo e após liderarem ao fim da primeira volta. Vencem o Sporting num encontro marcado pela lesão grave de Jordão e pela história do brinco perdido de Vítor Batista, mas empatam fora com Belenenses e Varzim e são ultrapassados pelos dragões. Na Taça, voltam a ser eliminados pelo Sporting, e na Europa, nos quartos de final, o Liverpool mostra-se demasiado forte, com dupla vitória: 1-2 na Luz, 4-1 em Anfield.

 A terceira temporada é mais uma vez um deserto, sem títulos. Três derrotas nas primeiras cinco jornadas complicam muito as contas de Mortimore, que só vê alguma alegria nos jogos com o Sporting, desde logo devido à histórica goleada por 5-0, o melhor resultado em dérbis desde 1946. Na Taça, o carrasco desta vez é o SC Braga, nos 16 avos de final. Na Taça UEFA, cai diante do Borussia M'Gladbach, que acabaria por ganhar o troféu, após prolongamento (0-0, 2-0 ap). É substituído na época seguinte por Mário Wilson, com os encarnados a terem finalmente luz verde para contratar estrangeiros.

 Na primeira temporada da segunda passagem, a de 1985/86, Mortimore volta a não ser campeão - falha o título na penúltima jornada e na Luz -, mas vence Taça e Supertaça. O jogo fatídico é um dérbi diante do Sporting, com Morato e Manuel Fernandes a dar a vitória aos leões por 2-1. O FC Porto passa para a frente do campeonato ao vencer em Setúbal com um golo de Paulo Futre: há igualdade pontual, mas os dragões têm vantagem no confronto direto. Na última ronda, os encarnados perdem sem o castigado Mortimore no Bessa e confirmam a festa azul e branca. Na final da Taça, vence o Belenenses por 2-0, com golos de Nunes e Rui Águas. E na Supertaça, a duas mãos, consegue manter um 0-0 nas Antas depois de Diamantino ter colocado as águias em vantagem na Luz. Já um golo do Dukla sofrido em casa (2-1, depois de 1-0 em Praga), elimina o Benfica nos quartos de final da Taça das Taças.

 

O segundo título de campeão de Mortimore chega na época seguinte. Mas nada o fazia prever. Na Taça das Taças é eliminado na segunda eliminatória pelo Bordéus, e a Supertaça é perdida para o FC Porto num encontro em que Paulo Futre se torna a grande figura, com dois golos na Luz (2-4, depois de 1-1 nas Antas). A 14 de dezembro, visita Alvalade e o resultado é esmagador: 7-1, com poker de Manuel Fernandes. No entanto, o inglês consegue endireitar a equipa. Seguem-se duas vitórias importantes, diante de SC Braga (2-1) e FC Porto (3-1), ainda empata na Póvoa de Varzim (0-0), mas embala logo a seguir para cinco triunfos seguidos. Não faltam percalços, como três empates seguidos diante de Académica, Portimonense e Belenenses, mas são compensados com triunfo diante do Sporting logo depois. É campeão com três pontos de avanço sobre o FC Porto, e volta a vingar-se do Sporting, no Jamor, na final da Taça, com bis de Diamantino.

 

Sucede-lhe Ebbe Skovdahl na Luz. Sai para o Betis de Sevilha e volta uma terceira vez, em 1988/89, a Portugal, mas para treinar o Belenenses.

 

Antigo central do Chelsea, onde jogou por seis temporadas, e do Queens Park Rangers, começou a carreira de treinador na Grécia, no Ethnikos (1971/72), e regressou a Inglaterra para treinar o Portsmouth na época seguinte, pegando depois do Benfica como aposta do presidente Borges Coutinho.

 

Considerado um treinador rigoroso e com especial foco na preparação física dos jogadores, John Mortimore é um nome histórico do futebol português e do Benfica.

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