Em entrevista ao jornal espanhol El País, a bioquímica responsável pelo trabalho de desenvolvimento de tratamentos com a molécula RNA, que está na base das vacinas da Moderna e da Pfizer/BioNTech, aponta que será possível um regresso à vida normal no verão.


Mãe da vacina contra a covid-19". Passou 40 anos a trabalhar na sombra, no desenvolvimento de tratamentos com a molécula RNA, que está na base de duas das vacinas desenvolvidas contra a covid-19 - Moderna e Pfizer/BioNTech. A vacina da Pfizer começou inclusive a ser administrada este domingo em vários países da União Europeia, Portugal incluído.

Ao jornal espanhol, Karikó, de 65 anos, conta que estudou Biologia na Hungria e, nos anos 80, rumou aos Estados Unidos para o doutoramento, para não mais voltar ao país de origem. Hoje, mora na Filadélfia.

A bioquímica nota ao jornal que, nos anos 90, recebeu várias cartas de rejeição de farmacêuticas que duvidavam da eficácia de vacinas e tratamentos com a molécula RNA, efémera. As vacinas da Moderna e da Pfizer contêm esta molécula, mais especificamente o tipo mRNA (RNA mensageiro). Em linhas gerais, estas vacinas fornecem uma espécie de código genético para que as células possam produzir proteínas virais. Quando as proteínas são produzidas, o corpo responde ao vírus com anticorpos, permitindo que se desenvolva imunidade.

Se em 2020 esta molécula permitiu chegar às vacinas com menor tempo de desenvolvimento, nos anos 90 não estava assim tão na moda, conta a investigadora. "Toda a gente entende agora , mas na altura não", lamenta Karikó ao El País. "Toda a gente pensava que era uma loucura, que não funcionaria."

A bioquímica húngara trabalhou durante anos neste tipo de investigação. No início do milénio, Karikó encontrou-se com Drew Weissman, que atualmente dirige o instituto público que desenvolveu a vacina com a Moderna. Na altura, a investigação de Karikó foi aplicada num trabalho contra o VIH.

Com o trabalho ignorado durante anos, a bioquímica húngara acabou por vender as patentes e técnicas para criar o ARN modificado há alguns anos, por 300 mil dólares.

"Estas vacinas vão tirar-nos desta pandemia. No verão provavelmente vamos voltar à praia, à vida normal. Com mais de 3 mil mortes diárias nos EUA não tenho dúvida de que as pessoas se vão vacinar, especialmente os mais velhos."

Respondendo às dúvidas levantadas sobre a vacina contra a covid-19, a investigadora reconhece que é normal haver incerteza, "porque nunca tinha sido aprovada uma vacina baseada em ARN." No entanto, sublinha que os protótipos são usados há mais de dez anos, em ensaios clínicos.

Derrick Rossi, um dos fundadores da Moderna, defendeu em entrevista à revista STAT que Katalin Karikó e Drew Weissman deveriam receber o prémio Nobel da Química pelo trabalho desenvolvido.

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