A visita do Papa a Moçambique pode atenuar as clivagens políticas e unir os moçambicanos, tal como aconteceu quando João Paulo II visitou o país em 1988, disse à Lusa um dos bispos que recorda a visita e que agora prepara a de Francisco.

"Eu experimentei isso. Antes havia discursos de acusação, havia um certo inconformismo político de uns e outros, mas quando João Paulo II chegou foi festa na cidade, festa no campo, foi festa entre todos", recorda António Juliasse, bispo auxiliar de Maputo e uma das figuras que lidera os preparativos da visita do Papa Francisco.

Na altura, havia guerra, mas passados 31 anos e três acordos de paz entre o Governo e a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), oposição, Juliasse só espera que a festa se repita.

"Os que tinham armas, de um e outro lado, pararam para poderem escutar e examinar aquilo que o Papa João Paulo II ia falar", sublinha.

E hoje, como na altura, o bispo auxiliar de Maputo acredita que o líder da igreja católica "não vai falar para os poderes de Moçambique, vai falar para o [cidadão] moçambicano", em suma, dirigir a palavra para aquilo que une todo o povo.

"Esperamos que todos eles, políticos, dirigentes, acolham o Santo Padre despidos destes orgulhos, que nascem das representações que têm da política. Penso que daí teremos benefícios".

António Juliasse espera que a visita do Papa Francisco mude a forma de agir dos políticos e faça crescer a autoestima da população.

"Ele vai dar muita confiança a todos os moçambicanos, no sentido de que somos capazes de construir caminhos melhores", ou seja, esperança num futuro melhor já existe - depois de assinado um novo acordo de paz a 06 de agosto -, mas só a esperança não basta.

"Sem termos confiança em nós mesmos, essa esperança fica diminuída" e a igreja acredita que o Papa Francisco saberá motivar os moçambicanos.

"Ele já disse quais são os melhores caminhos para se chegar à verdadeira paz", sublinha, numa alusão à mensagem de antecipação da visita que Francisco divulgou na sexta-feira.

"Olhar para aqueles que são os necessitados, olhar para o que faz falta aos moçambicanos e assim lutar para melhorar as condições de vida" é a receita base para que tudo o resto se desenvolva.

Um dos momentos chave da intervenção do papa em Moçambique será na missa campal de sexta-feira no Estádio Nacional do Zimpeto, que se espera cheio e com projeção complementar no exterior, para quem não conseguir lugar.

"Prevemos superar as 80 mil pessoas. Mas alguns vão participar desde casa ou de outros locais" através da transmissão televisiva.

De uma forma ou de outra, haverá muitos moçambicanos "ligados ao Santo Padre".

O papa Francisco chega a Moçambique na quarta-feira para iniciar um périplo que o levará no dia 06 a Madagáscar e no dia 09 às ilhas Maurícias.

Outro dos pontos altos da visita a Moçambique é um encontro inter-religioso com jovens num pavilhão desportivo da baixa de Maputo na manhã de quinta-feira.

De acordo com o censo geral da população moçambicana de 2017, a religião católica é seguida por 26% da população, o maior grupo, o Islão representa 18%, a religião zione 15%, evangélicos/pentecostais 14% e anglicanos cerca de 1%.

 

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