O primeiro de dois aviões C-130 com apoio português às operações de socorro às vítimas da passagem do ciclone Idai em Moçambique é esperado esta sexta-feira à tarde na cidade da Beira

O balanço mais recente de vítimas do ciclone Idai em Moçambique aponta para 294 mortos. A meteorologia deu tréguas às equipas de resgate durante o dia de quinta-feira. Ainda assim, segundo números do Governo de Maputo, pelo menos 15 mil pessoas encontraram-se em perigo.

O primeiro de dois aviões C-130 com apoio português às operações de socorro às vítimas da passagem do ciclone Idai em Moçambique é esperado esta sexta-feira à tarde na cidade da Beira.

O avião transporta a força de reação imediata portuguesa, constituída por 25 fuzileiros, dez elementos do Exército, três da Força Aérea e dois da GNR (equipa cinotécnica).

O envio dos dois C-130 Hércules, da Força Aérea Portuguesa, foi anunciado ao início da noite de quarta-feira pelo ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal (MNE), Augusto Santos Silva, tendo partido de Lisboa algumas horas depois.

Um segundo C-130 com apoio português partiu na noite de quinta-feira para a Beira, transportando uma equipa avançada de peritos da Autoridade Nacional de Proteção Civil, elementos da Força Especial de Bombeiros, da Guarda Nacional Republicana (GIPS e binómios de busca e socorro), do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) e da EDP.

No primeiro avião, além dos 35 militares, integram a força, uma equipa cinotécnica (homem e cão) da GNR, numa operação coordenada pela Autoridade Nacional de Proteção Civil.

Os técnicos portugueses esperados hoje no centro de Moçambique vão apoiar as operações de busca e salvamento, com uma equipa de fuzileiros que já tinha estado numa missão anterior no país e que "conhece bem as responsabilidades", descreveu o ministro.

A força inicial integra também uma equipa médica do Exército português e meios para ajuda médica de emergência, incluindo camas, tendas e outros equipamentos, acrescentou Augusto Santos Silva.

Este primeiro C-130 transporta ainda um oficial de engenharia "cuja missão fundamental é identificar as necessidades mais prementes do ponto de vista do restabelecimento das comunicações", continuou Santos Silva.

PORTUGUESES NA BEIRA MOSTRAM "DESILUSÃO COMPLETA" AO GOVERNO POR FALTA DE APOIO CONSULAR
Os portugueses residentes na cidade da Beira, centro de Moçambique, manifestaram na quinta-feira uma "desilusão completa" com o consulado de Portugal, queixando-se de falta de apoio durante a passagem do ciclone Idai.
"Em nenhum momento [o Consulado Português da Beira] esteve à altura de qualquer das nossas necessidades mínimas e imediatas e, por isso, a nossa desilusão é completa", referiu Joaquim Vaz, empresário, numa reunião com o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Luís Carneiro.

Aquele membro do Governo português chegou na quarta-feira à noite à cidade da Beira, onde se encontra, para avaliar o impacto do ciclone Idai, e na quinta reuniu-se com a comunidade que apresentou muitas queixas.

"Não estamos nada orgulhosos do nosso serviço consular. Durante estes oito dias, não tivemos informações, que o senhor teve que vir dar-nos, de Portugal", acrescentou o empresário Joaquim Vaz. "Estamos completamente desiludidos e por nossa conta", referiu.

Uma carta assinada por 51 cidadãos portugueses, a maior parte empresários que dizem dar emprego a 800 pessoas, inclui vários pedidos e foi lida durante o encontro.

A falta de um telefone satélite, que poderia servir para estabelecer contactos depois de todas as operadoras deixarem de funcionar, foi um dos aspetos focados por mais do que uma vez pelos participantes na reunião.

Se várias empresas dispõem destes aparelhos, que foram cedendo face à emergência, o consulado também devia ter um, referiu Carla Alfredo, portuguesa residente na Beira. Ausência de informação ou de reforço prévio da equipa consular, quando já se sabia que o ciclone se aproximava, foram outras das queixas, além de um alerta para cinco famílias portuguesas com carências alimentares.

Entre os principais pedidos na carta entregue a José Luís Carneiro está que Portugal indique uma força especial para garantir a proteção dos portugueses na Beira, agora que estão mais vulneráveis numa cidade sem eletricidade, nem outros serviços básicos. "As pilhagens, assaltos e violência generalizada já começaram", realçou Joaquim Vaz.

A carta pede ainda a criação de uma linha de crédito que possa apoiar a comunidade em casos urgentes e no esforço de reconstrução que se segue.
"Não se pode pensar que Portugal tem autonomia para chegar aqui e designar forças especiais para proteger só os portugueses", respondeu o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Luís Carneiro.

"Isso depende das autoridades moçambicanas. Moçambique tem liberdade para pedir apoio em áreas especiais", acrescentou, sublinhando que "Portugal é um parceiro que é chamado a cooperar quando necessário".

José Luís Carneiro classificou como uma boa possibilidade a criação de uma linha de apoio financeiro e garantiu que "o reforço da capacidade de resposta do posto consular ficará salvaguardado com os meios que, até sábado, chegarão". O governante realçou, durante o encontro, que o próprio serviço consular ficou sem comunicações e sofreu vários prejuízos durante a passagem do ciclone.

De acordo com números divulgados na quinta-feira, em Genebra, pelo Programa Mundial Alimentar (PAM) das Nações Unidas, a passagem do ciclone Idai por Moçambique, Zimbabué e Maláui atingiu pelo menos 2,8 milhões de pessoas.

O Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, decretou o estado de emergência nacional na terça-feira e disse que 350 mil pessoas "estão em situação de risco".

MOÇAMBIQUE CUMPRE HOJE O TERCEIRO E ÚLTIMO DIA DE LUTO NACIONAL

No Zimbábue foram anunciados dois dias de luto nacional, com início no sábado.

O Idai, com fortes chuvas e ventos de até 170 quilómetros por hora, atingiu a Beira (centro de Moçambique) na noite de 14 de março, deixando os cerca de 500 mil residentes na quarta maior cidade do país sem energia e linhas de comunicação.

FONTE: EXPRESSO/SIPHIWE SIBEKO / REUTERS

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