Ainda que a história deste nome (Anglia) tenha começado antes de 1959 com a primeira e segunda geração deste modelo, é a partir dessa data que este icónico modelo é mais conhecido. Porventura é um dos clássicos mais apreciados em Inglaterra, com uma legião de fãs incondicionais, e também no nosso país onde conquistou os corações de muitos amantes de automóveis ao longo de décadas. Hoje é um daqueles automóveis de culto e este artigo é como tantos outros um tributo para quem conhece este ícone e para os que ainda não o conhecem, ficarão com uma noção da história e características deste clássico.

A última geração (a 3ª) do modelo Anglia conhecida com o nome de código 105E, foi introduzida em 1959, e o seu arrojado design para a época, criou enorme empatia com o público. O seu estilo reflectia uma tendência do desenho dos automóveis norte americanos, ao qual nas versões chamadas “Deluxe”, acrescentavam também uma grelha dianteira de dimensões generosas inteiramente cromada, que juntamente com os seus faróis redondos permitiam ver alguns traços de outros automóveis do outro lado do atlântico. Se os modelos mais luxuosos apresentavam uma grelha cromada, os Anglia mais “básicos” possuíam uma grelha mais pequena, pintada à cor da carroçaria.

IMG 1537 1024x682 Ford Anglia 105E e 123E

As suas linhas, em especial do ponto de vista do perfil, fazem lembrar automóveis tão distintos como o Studebaker de 1950 ou até mesmo os primórdios do Ford Thunderbird. Tudo isto fruto de uma aerodinâmica testada em túnel de vento pelos engenheiros britânicos.

Outro pormenor do seu curioso design era o seu vidro traseiro inclinado para trás. Algo que também poderia ser visto no final dos anos 50 em modelos da marca Lincoln e Mercury como também no europeu Citroën Ami. Segundo os responsáveis da Ford esta solução permitia que o vidro de mantivesse seco em dias chuvosos.

A realidade é que essa particularidade foi copiada de outro modelo, mais concretamente do Lincoln Continental de 1958. Este modelo tinha uma abertura eléctrica do vidro traseiro. Para além deste tipo de desenho ser usado pela Ford no clássico Consul, também foi posteriormente copiado para os modelos de três rodas da Bond, da Reliant e da Invacar.

O design do tejadilho do Ford Anglia permitia um enorme espaço em altura para os passageiros e respectiva bagagem. Continuando na zona traseira, este modelo tinha duas “barbatanas” traseiras muito ao estilo dos automóveis americanos de maiores dimensões daquele período.

interior Ford Anglia

Em Setembro de 1961, foi lançado uma versão carrinha do Anglia, passando assim a juntar-se ao modelo de 3 portas. Num interior de certa forma espartano mas com um estilo muito atractivo, existia no painel de instrumentos uma luz vermelha de aviso para o gerador e uma luz de aviso de cor verde para a pressão de óleo.

A unidade motriz escolhida pela Ford para o Anglia foi um motor de 1,0 litro de capacidade (997cm3) debitava 39 cavalos de potência e ficou conhecido com o nome de código “Kent”.

Em 1959 uma revista britânica testou as prestações do Anglia 105E. A velocidade máxima registada foi de 118,8 km/h e a aceleração de 0 a 97 km/h era efectuada em 26,9 segundos. Para além disto foi testado o consumo médio, e o valor final foi de 6,86 litros por 100 quilómetros. O Ford Anglia 105E ensaiado pela revista Motor tinha um preço de 610 libras.

Mais tarde o construtor criou um modelo Anglia com um motor mais potente com 1,2 litros de capacidade, o Super Anglia 123E e que iremos abordar mais à frente neste artigo.

Ford anglia cutaway 630x301 Ford Anglia 105E e 123E

Obviamente que as prestações não eram muito entusiasmantes tendo em conta o nível de potência oferecido pelo pequeno motor. Ainda assim o 105E era suficientemente lesto em relações a outros automóveis daquele tempo, e também em relação às gerações anteriores.

A caixa de velocidades (manual) era também uma novidade da Ford para o Anglia. Possuía quatro velocidades, que tinha a particularidade de as últimas três relações serem sincronizadas para um melhor manuseamento da mesma. Em 1962 porém a Ford acabou mesmo por substituir esta caixa de velocidades por uma com as mudanças todas sincronizadas em todos os modelos que possuíam o motor de 1,2 Litros (1198cm3).

Outra evolução em relação aos primeiros Anglia foi no sistema de limpa pára-brisas do automóvel. Os primeiros modelos estavam equipados com limpa pára-brisas que funcionava atrás de vácuo o que o tornava o sistema notoriamente lento e pouco eficaz. Foi substituído por um sistema eléctrico.

No capítulo da suspensão porém não houve mudanças em relação ao sistema MacPherson. Ou seja a suspensão dianteira independente que foi usada no 100E foi mantida inalterada.

Anglia

Algo que contribuiu para o sucesso do Anglia foi uma história que data a Outubro de 1962, quando um jovem de 24 anos de idade (Tony Brookes) e um grupo de amigos com um Anglia 105E privado, alterado com um Kit Performance oficial da marca Ford (custava cerca de 13 Libras) guiaram até ao Autódromo de Montlhery perto de Paris. Nesse circuito conseguiram amealhar seis recordes internacionais na categoria C alcançando uma velocidade média 134,33 km/h. Foram sete dias e respectivas noites percorrendo no total entre 15.000 e 20.000 quilómetros. A resistência e durabilidade do Anglia permitiu percorrer essa distância sem que fossem necessárias reparações, sendo apenas necessário mudar pneus.

O sucesso comercial do Anglia entrou em declínio, depois de a Ford ter lançado o modelo Cortina. Em 1960, 191.752 Anglia tinham deixado a fábrica da Ford em Dagenham, num ano pleno de produção do modelo 105E. Estes números representaram um novo recorde de produção para a Ford Motor Company.

A partir de Outubro de 1963, a produção continuou numa nova fábrica (Halewood) da Ford em Merseyside ao lado dos modelos Corsair que tinham sido recentemente introduzidos. O Super Anglia introduzido em Setembro de 1962 e em 1963 compartilhou a versão do mesmo motor com o recém-lançado Ford Cortina. O Super Anglia era facilmente identificado por uma faixa pintada ao longo da sua carroçaria.

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A partir de 1962 e até 1967 quando terminou a sua produção, o 123E Anglia Super estava disponível ao lado do menos potente 105E. Possuía como já referimos anteriormente um motor maior com 1,2 litros de capacidade (1198cm3) e 50 cavalos de potência, uma nova caixa de velocidades sincronizada incluindo a 1ª velocidade, assim como outros aperfeiçoamentos em relação ao modelo base.

Este modelo foi vendido também na Europa. Esta versão estava apenas disponível como o Anglia Sportsman, que tinha a particularidade de carregar seu pneu sobressalente na parte de trás. Para além disso o 123E vinha equipado com pormenores estéticos distintos. Tais como os pneus com uma faixa branca, a respectiva faixa lateral pintada na carroçaria que tinha a particularidade de contornar as “barbatanas” traseiras, assim como outros componentes cromados nos pára-choques.

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A Ford também disponibilizou duas cores novas (metalizadas) para a carroçaria, que ficaram conhecidas com os nomes “Blue Mink” e “Venetian Gold”. Foram produzidos 250 na cor azul e 500 unidades foram produzidas na cor “Gold”, tornando estes modelos mais raros que os restantes Anglia 123E.

Os Anglia estavam disponíveis com vários níveis de equipamento. O modelo base é conhecido pela versão Standard, e com esta versão não existia peças na carroçaria em cromado, e estava equipado com uma grelha dianteira em aço e o seu equipamento interior era minimalista.

O nível de equipamento Deluxe possuía uma faixa cromada ao longo da carroçaria, luzes traseiras com aro cromado, tampa de porta-luvas, palas para o sol e uma grelha frontal do radiador cromada.

A versão “topo de gama” era a versão Super, que tinha dupla faixa cromada ao longo da carroçaria, tejadilho pintado de outra cor para criar contraste e interiores mais luxuosos.

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A maior particularidade do Anglia é sem dúvida o desenho da sua carroçaria, amado por muitos e por outros nem tanto. Um modelo icónico que reúne inúmeros fãs tanto em Inglaterra onde é, e foi mais popular, como também em Portugal.

Muitos insistem em não deixar “morrer” este clássico emblemático e são inúmeros os clubes espalhados pela Europa, com maior incidência em terras de sua majestade. Não era um automóvel potente, nem com grandes ambições desportivas, ainda assim era razoavelmente lesto nas prestações e na última versão conseguia ser um pouco mais vigoroso. Ainda assim era um modelo muito económico, pois consumia pouco combustível, em especial a versão com o motor de 1,0 litro e era extramente fiável como se comprovou em 1962 pelas mãos de Tony Brookes e seus amigos.

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