Estima-se que a doença afete cerca de 18 mil portugueses. Avanços na investigação são descritos por Tiago Outeiro, que lidera um grupo de trabalho na Alemanha

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"Podemos dizer que se esta estratégia funcionar vai-nos permitir estar mais perto de travar a progressão da doença de Parkinson. Isso pode vir a ser uma realidade". A afirmação é do professor Tiago Outeiro, que lidera um grupo de investigação na Alemanha sobre a doença, que, estima-se, afeta cerca de "18 mil portugueses". Um estudo que está a decorrer e que, diz, dentro de dois a três anos, poderá "ter evidências mais sólidas de potenciais benefícios para os doentes". Para já, os primeiros resultados "são muito promissores".

Foi da estratégia de que fala o cientista português e dos resultados do grupo de trabalho que dirige na Universidade de Medicina de Goettingen que se falou, entre outros temas, este sábado, no congresso nacional da Sociedade Portuguesa de Doenças do Movimento (SPDMov), no Hotel Curia Palace, em Aveiro.

De acordo com o investigador, sabe-se que "uma característica da doença é a acumulação de aglomerados proteicos no cérebro dos doentes" e que até agora não se tinha informação como os remover. Nesse sentido, explica, têm existido várias estratégias para "interferir com este processo". "Como, por exemplo, utilizar anticorpos, ou seja, usar o sistema imunitário para tentar remover estes aglomerados proteicos que nós pensamos que são nocivos para os doentes".

O banco dos cérebros. Aqui guarda-se material "extremamente valioso"Mas há outra estratégia que está a ser seguida pelos investigadores e que é, no fundo, "reduzir a produção destas proteínas que depois formam os aglomerados", diz Tiago Outeiro. Para tornar mais claro, o especialista faz uma comparação com a acumulação de lixo."O que nós fazemos é interferir com a maquinaria celular onde estas proteínas são produzidas para tentar reduzir a acumulação deste lixo proteico que forma então os aglomerados". E isto está a ser testado através de "estratégias moleculares". "Como reduzir os níveis da produção da proteína ou, por outro lado, aumentar a taxa de remoção da proteína ativando certas vias celulares que podem então ter este papel", especifica.

No fundo, são duas linhas da investigação do grupo liderado pelo português na Alemanha e cujo objetivo é "interferir com os aglomerados proteicos no sentido de reduzir a sua acumulação e a sua toxicidade no cérebro".

Dirige o estudo na Alemanha, que engloba outros grupos de investigação em vários países, sendo que Portugal participa através do CEDOC - Centro de Estudos de Doenças Crónicas da Nova Medical School.

A doença de Parkinson, que não tem cura, "é conhecida por ser uma doença motora, do movimento" e entre os sintomas estão os tremores, a rigidez muscular, a instabilidade postural, a dificuldade de iniciar movimentos, explica o professor.

"Mostramos que a estratégia está a funcionar"
Para já a investigação está na fase laboratorial, mas há alguns aspetos do trabalho que os cientistas estão a desenvolver a ser testados em doentes. Em Portugal, ainda não há ensaios clínicos, esclarece o professor Tiago Outeiro, que foi um dos investigadores do Instituto de Medicina Molecular da Faculdade de Medicina de Lisboa.

Mas na Alemanha, Dinamarca e Inglaterra já estão a decorrer ensaios clínicos. Nestes países "há doentes que estão a participar nestes estudos, não diretamente na doença de Parkinson, porque isso ainda está em fase laboratorial, mas com a mesma ideia noutras doenças, como a de Huntington, em que se acumulam proteínas no cérebro". O objetivo é tentar ver se se consegue obter efeitos pretendidos.

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E até agora os resultados preliminares "são muito promissores", congratula-se o investigador. "Nos modelos laboratoriais que estamos a usar conseguimos os efeitos que estão em linha do que esperávamos. Ou seja, conseguimos reduzir a acumulação das proteínas e reduzir os seus efeitos tóxicos", afirma o especialista. O que na prática significa é que o trabalho em laboratório permitiu verificar que nos animais (ratinhos) - que "reproduzem algumas características da doença nos humanos" -, é possível travar a progressão e evitar os sintomas.

Já nos ensaios clínicos em que estas linhas de investigação estão a ser testadas em doentes, a investigação conseguiu "chegar ao alvo terapêutico". "Conseguimos medir um efeito na redução da acumulação das proteínas no cérebro, portanto, mostramos que a estratégia está a funcionar", revela.

Em 2030 as doenças degenerativas vão afetar "mais de 100 milhões de pessoas"
Tratam-se de conclusões que vão ao encontro do desejado mas, faz notar o cientista, faltam cerca de dois a três anos "até termos resultados conclusivos" e "mostrar que de facto tem um impacto positivo nos doentes também", além do que foi verificado nos animais.

Ainda assim, apesar de haver uma janela de tempo até ter uma maior evidência dos potenciais benefícios, "os resultados são promissores e que nos devem deixar otimistas". "Não será, eventualmente, uma cura completa mas será um passo significativo no sentido de permitir ter algum tipo de intervenção terapêutica que até hoje não temos", diz Tiago Outeiro sobre a possibilidade de novos medicamentos para as doenças neurodegenerativas, como Alzheimer, que afeta certa de "100 mil" portugueses.

O número aumenta para cerca de 150 mil quando se fala no total das doenças neurodegenerativas, só no nosso país, explica o investigador. "No mundo, estima-se que em 2030 ultrapasse os 100 milhões de pessoas", diz Tiago Outeiro. Isto porque vivemos até mais tarde e o envelhecimento aumenta o risco para estas doenças.

Os cientistas desconhecem a maioria das causas destas doenças, o que explica a complexidade do trabalho dos investigadores. "Na doença de Parkinson, a maior parte dos casos são esporádicos, ou seja, não têm uma causa definida que conheçamos. Há formas genéticas da doença, mas representam apenas 5 a 10%, portanto, são formas raras", explica Tiago Outeiro.

FONTE: DN/Susete Henriques

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