Este artigo faz parte de um conjunto de 14 textos que o Expresso publicou sobre a contaminação dos solos na Terceira, nos Açores, pela atividade da Base das Lajes. Os trabalhos saíram nas edições em papel e online entre 10 de março e 14 de setembro de 2018 - a investigação acaba de ser galardoada pelo Clube de Jornalistas com o Prémio Gazeta de Imprensa 2018

VIRGÍLIO AZEVEDO

O canal de televisão RT News, a agência de notícias Sputnik International e a agência de vídeos Ruptly, todos em língua inglesa e pertencentes ao Estado russo, lançaram uma operação mediática concertada para internacionalizar o problema dos solos contaminados pela atividade da base americana das Lajes, na ilha Terceira, Açores.

A operação começou a 22 de fevereiro de 2018, quando a RT News apresentou nos noticiários e no site uma reportagem feita pela Ruptly, intitulada “Americanos deixam terra queimada: EUA recusam-se a limpar resíduos carcinogénicos na base dos Açores”, em que revelava que “os habitantes da Terceira exigem a limpeza da poluição tóxica e os cientistas dizem que está a provocar casos de cancro, mas Washington não concorda”. A Ruptly tem sede em Berlim e a reportagem, muito completa, foi feita por dois jornalistas portugueses, que incluíram mesmo a história de uma moradora da Praia da Vitória, Madail Ávila, com cancro da mama e vários casos de cancro na família.

No mesmo dia, o site da Sputnik publicou a notícia “Inferno que se repete: base dos EUA em Portugal pode estar a espalhar o cancro”, em que dizia que “cada vez mais habitantes da ilha Terceira, em Portugal, estão a sofrer de doenças mortais, em especial cancro, a taxas muito acima do resto do arquipélago dos Açores”. E nos dias seguintes surgiram novas notícias da agência com títulos como “Fundadora de movimento antinuclear defende limpeza ambiental na base dos EUA nos Açores devido à crise de cancro”, ou “Governo português sabe de casos de cancro na base dos EUA nos Açores”. Depois as notícias entraram nas redes sociais — Youtube, Facebook e Twitter — e espalharam-se pelo mundo.

AUGUSTO SANTOS SILVA ENTREVISTADO EM MOSCOVO
A Sputnik aproveitou a visita do ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, a Moscovo, a 25 de fevereiro, motivada pelo encerramento da primeira exposição sobre cultura portuguesa nos Museus do Kremlin e por uma reunião de trabalho sobre relações bilaterais com o seu homólogo russo, Sergey Lavrov, e fez-lhe uma extensa entrevista em que abordou as relações comerciais e de cooperação Portugal-Rússia, a participação portuguesa no Campeonato Mundial de Futebol, as migrações na Europa e as capacidades de defesa de Portugal no âmbito da NATO. Mas as primeiras perguntas a Augusto Santos Silva foram sobre o problema da contaminação dos solos na Terceira por causa da Base das Lajes.


A existência de aquíferos contaminados e derrames de hidrocarbonetos próximo de furos de captação de água para consumo público na Praia da Vitória (Terceira), tem estado a ser denunciada por peritos locais como António Félix Ribeiro, investigador e professor da Universidade dos Açores, ou Orlando Lima, que trabalhou na gestão de programas ambientais na base americana e é hoje empresário. Mas Francisco Cota Rodrigues, também investigador e professor da Universidade dos Açores, considerado o maior especialista em hidrogeologia do arquipélago, fala em entrevista ao Expresso em “infundadas especulações”, diz que se trata “de uma situação pontual” e defende que “a ilha continua a ser um paraíso limpo”.

Félix Rodrigues afirma que há em alguns aquíferos do concelho da Praia da Vitória, onde vivem 21 mil pessoas, concentrações muito acima do normal, relativamente a substâncias analisadas pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC). "Em casos como os BTEX-Benzeno, Tolueno, Etilbenzeno e Xileno, substâncias derivadas do petróleo, encontram-se concentrações 211 vezes superiores ao que é normal encontrar no solo”.

Por outro lado, Orlando Lima conta que 32 bombas nucleares de profundidade foram armazenadas nas Lajes para operações em tempo de guerra. “O armazenamento foi desativado em 1994 e as 32 bombas tinham apenas cinco, dez ou 15 quilotoneladas de potência, mas eram cargas com capacidade para atingir submarinos”. O empresário defende “a identificação de áreas de risco radioativo onde haja condicionamento do uso do solo, medidas de remediação e um plano de saúde pública”.

OPERAÇÃO DE GUERRA ECONÓMICA
Até à publicação da primeira parte da investigação do Expresso sobre os solos contaminados, na edição de 10 de março de 2018, o tema tinha sido noticiado regularmente pelos meios de comunicação dos Açores, em especial o “Diário Insular” (Angra do Heroísmo) e a RTP Açores, e pontualmente por alguns media do Continente e pela agência Lusa. Mas só ganhou projeção internacional com a iniciativa da Rússia. “Foi uma operação de guerra económica através da propaganda, para punir os Açores e semear a divisão de modo a atingir os EUA”, garante Miguel Monjardino.


O especialista em assuntos internacionais, professor de Geopolítica e Geoestratégia da Universidade Católica Portuguesa e colunista do Expresso, constata que “a RT News escolheu o final de fevereiro de 2018 para divulgar a sua reportagem porque a época turística na Terceira é preparada nessa altura”. Os media estatais russos “são extremamente profissionais e competentes nesta arte da guerra da informação, que faz parte do arsenal estratégico da Rússia. E em duas semanas o efeito político foi estonteante”.

Miguel Monjardino explica que “a campanha dos media russos foi uma operação de multiplicação da influência política, em que o verdadeiro objetivo não é a descontaminação dos solos da ilha Terceira, mas o abandono da Base das Lajes e a saída dos EUA dos Açores, o que não interessa à região nem ao Estado português”.

Este caso “é o primeiro grande exemplo em Portugal de como as operações de guerra de informação da Rússia funcionam, porque se parte de um problema real — a contaminação dos solos — mas os objetivos políticos são outros: minar a relação entre Portugal e os EUA e favorecer os interesses estratégicos russos”.

O especialista sublinha ainda que “o que potencia esta oportunidade é a falta de transparência política nacional em comunicar ao público o problema da contaminação dos solos pela Base das Lajes e o que vai ser feito para o resolver. E é nesta zona de penumbra política que estas operações de guerra de informação têm lugar”. A metodologia de ação usada pela Rússia “é igual à que foi usada nos EUA e já foi explicada pormenorizadamente no processo conduzido por Robert Mueller, o conselheiro especial nomeado pelo Departamento de Justiça americano para apurar se houve conluio entre a equipa de Donald Trump e a Rússia para assegurar a sua vitória nas eleições presidenciais de 2016 ”, recorda Miguel Monjardino. “E há imensa documentação oficial dos EUA, Alemanha, estados bálticos e outros países sobre esta metodologia”.

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