Tibério Dinis passa em revista, nesta entrevista concedida ao investinpraiadavitória alguns dos principais temas que fazem parte do quotidiano do Concelho quando o mesmo começa a sentir os efeitos de recuperação da crise provocada pelo downsizing norte-americano na Base das Lajes

 

 IPV - Nesta entrevista gostaríamos de passar em revista alguns dossiers, alguns deles já com alguns anos, que a Câmara Municipal da Praia da Vitória, a que preside, tem vindo a acompanhar tal o interesse que os  mesmos acarretam para a economia, quer do concelho, quer da ilha Terceira

Comecemos pelo chamado “Projecto Costa” e com todas as ideias que, sucessivamente têm surgido no sentido de rentabilizar todo o potencial do porto da Praia.

TD – Talvez seja necessário fazermos uma análise mais alargada que vai para além do “Projecto Costa “ que referiu e falarmos de tudo o que diz respeito ao transporte marítimo de mercadorias e de todo o futuro comercial do Porto da Praia da Vitória.

Há um conjunto de projectos em que se insere o “Projecto Costa”, que tem que ver com a plataforma para armazenamento de gás natural para abastecimento dos navios que já usam esse tipo de combustível e navegam no Atlântico, que estão na órbita do concurso público internacional para a concessão da exploração do porto da PV a um privado que terá de efetuar o conjunto de investimentos necessários ao seu desenvolvimento. Como sabe a Câmara Municipal não tem acesso dirceto as essas peças contratuais porque se trata de um dossier que está a ser negociado entres os governos da Região e da República. Naturalmente que acompanhamos o processo-

Para já vemos, com alguma preocupação, e temos todos, não só a Praia da Vitória como todos na ilha Terceira, de olhar atentamente um caminho que está a ser percorrido e do qual já está em discussão pública o estudo de impacto ambiental do prolongamento do porto comercial com vista à concessão que irá englobar uma série de projectos, desde o alargamento da zona industrial  do Cabo da Praia, “o projecto Costa”, tudo o que está relacionado com a componente de mercadorias.  Esta é uma discussão séria que tem de ser vista de uma forma bastante objetiva porque temos de decidir que futuro pretendemos para a baía da Praia da Vitória.

Neste momento ainda estamos a analisar esse documento porque o mesmo tem impactos na baía da PV, na sua ondulação, na consolidação das areias, na fauna e na flora,  e, neste contexto, a autarquia quer olhar com profundidade e toda a atenção possível  e quer, igualmente, um  grande envolvimento da sociedade civil nesta matéria de vital importância para todos.

Por muito grande que a baía seja de grande dimensão ela é pequena para ter actividades turísticas  e de lazer a convirem com uma grande estrutura portuária. É impossível conciliar as duas coisas num espaço tão pequeno.

- O cais de cruzeiros e a plataforma logística estão dependentes do concurso internacional ou algum deles pode avançar de forma autónoma?

- O cais de cruzeiros é autónomo e está de fora de tudo o resto que referi até porque se situa noutra zona geográfica da baía e com outras condicionantes e potenciais. Pelo contrário tudo o que tem que ver com o transporte de mercadorias se relaciona com a gestão do porto oceânico e, nesse âmbito, a partir do momento em que haja uma concessão a uma entidade privada, toda a gestão dos projectos existentes ficarão sob a sua responsabilidade.

E devo realçar duas questões: uma delas é que esse concurso público se desenrole sob um manto sério de atratividade por forma a que haja um número diversificado de concorrentes por forma a que possamos escolher a melhor opção, o pior que pode acontecer é ele ficar deserto,  e outra, antes disso, aquilo que referi anteriormente e que tem que ver com esse “dilema” que coloca, de um lado, o nosso desejo de potenciar o transporte de mercadorias em termos regionais, e isso é outra discussão, e do outro, sabermos quais são as condicionantes  que existem para a baia e sabermos, também, se há alguma forma de esbatermos ou reduzirmos essas condicionantes. O estudo está disponível para consulta pública e aproveito a oportunidade para apelar a que todos os interessados, e espero que sejam muitos, consultem e se pronunciem sobre o estudo de impacto ambiental de que tenho vindo a falar. 

A plataforma, no porto da Praia, para a distribuição de mercadorias a nível regional, nomeadamente a partir da Terceira para as restantes ilhas do Grupo central e do Grupo Ocidental não está, se bem percebi, dependente do concurso internacional mas sim de vontade política interna em refazer o modelo de transporte de mercadorias existente nos Açores…

- Sobre o transporte de mercadorias entre o continente e os Açores e a sua distribuição por todas as ilhas creio que é fundamental uma revisão do modelo que está em vigor, que já tem muitos anos, tendo havido ao longo desse tempo uma alteração dinâmica do tipo de produtos importados ou exportados por cada uma das ilhas sendo, por isso, muito importante essa revisão olhando com atenção para todas as potencialidades já existentes no Porto da Praia da Vitória.

Basta olhar, e temos de ser sensíveis a isso, para o que os nossos empresários dizem no que diz respeito às dificuldades que sentem em especial no sector da exportação, em que a fileira da carne e produtos frescos, é um bom exemplo,  com os problemas resultantes dos tempos de espera para a sua exportação para o continente português. Mais três dias de espera por barco, por exemplo, na ilha Terceira, são menos três dias no prazo de validade numa grande superfície no mercado continental, com as consequentes perdas de valor acrescentado para os produtores locais.

Quanto mais conseguirmos diminuir os tempos de espera e os preços do transporte mais valor acrescentado conseguiremos dar aos produtos.

Repito que temos de ser sensíveis aos argumentos dos empresários porque são eles que melhor sabem e conhecem essas dificuldades em que não podemos deixar de realçar outro factor, o da irregularidade, que o atual modelo acarreta com todos os prejuízos daí advenientes.

Por tudo isto acho que não deveriam existir reservas em relação à revisão do modelo de transporte marítimo de mercadorias em vigor nos Açores.

Acreditamos que o porto comercial da Praia tem um conjunto de valências disponíveis que podem integrar uma solução regional que ajude a resolver os problemas atualmente existentes no que diz respeito à importação e exportação de mercadorias em todo o Grupo Central.

- Concretizada a certificação civil do aeroporto das Lajes o assunto não deixa de estar na ordem do dia sobretudo no que diz respeito a resultados práticos relacionados com uma procura crescente que não se tem vindo a verificar.

- Este é um assunto  que tem sido demasiado “embrulhado” na sua explicação e porque não coincidiu com a certificação nada de novo do ponto de vista prático.

Há três questões bastante distintas que devem ser explicadas:

O aeroporto das Lajes funcionava até à certificação num regime excecional ou seja já tínhamos a SATA e a TAP a voarem para cá bem como os voos charter e, mais tarde, a Ryanair. Todas essas operações se desenrolavam sob um regime excecional, com um conjunto de autorizações e procedimentos excecionais. A certificação tornou essa natureza de exceção em regra. Podemos recordar o muito noticiado episódio ocorrido há quatro ou cinco anos que fez com que aviões tivessem sido obrigados a declararem emergência para conseguirem aterrar nas Lajes num dia de muito mau tempo. Nessa altura os militares tinham absoluto poder de decisão. Hoje, com a certificação, esse episódio não teria acontecido.

Resumindo a certificação conseguida tornou-se regra em relação ao que até à sua entrada em vigor era uma exceção.

Temos contudo que levar em conta a perceção com que as pessoas olham para esse processo que normalizou o que já existia mas não trouxe nada de novo do ponto de vista prático que teria sido diferente se após a conclusão do processo tivessem aparecido novos voos ou companhias a operar nas Lajes.

Dada esta explicação no que ao passado diz respeito é preciso olhar para o futuro.

É essencial que todos os elementos relacionados com a certificação fiquem disponíveis nos manuais de voo internacionais, um processo que ainda não está concluído, porque são matérias que levam o seu tempo, e depois para mim o que é essencial fazer é o que se prende com o posicionamento do aeroporto das Lajes em termos de promoção externa e de atracção.

É um processo distinto da certificação mas só é possível porque a mesma está feita e concluída.

A verdade é que não tem havido esta promoção do aeroporto internacional das lajes como deveria ser feita.  Posso estabelecer, a título de exemplo, o trabalho desenvolvido pela “Portos dos Açores” na promoção e divulgação dos portos do arquipélago a nível internacional em feiras de Turismo de Cruzeiros para que os operadores desse segmento turístico incluam esses portos nas suas rotas.  No que diz respeito a aeroporto das Lajes, e a Câmara Municipal tem vindo a revindicar nesse sentido é que  seja promovido de forma semelhante junto dos principais operadores dando a conhecer todas as suas potencialidades que são muitas. Se essa promoção não for feita as Lajes acabam por ficar “escondidas” no meio de centenas de aeroportos existentes em todo o mundo.

Ainda esta semana a União Europeia anunciou o desvio de centenas de voos do centro da Europa, cujo espaço aéreo está congestionado, levando esse tráfego mais para Sul, nomeadamente para o Mediterrâneo e a Espanha já se posicionou com Barcelona para acolher esse tráfego. Estou a falar de mil voos no próximo Verão, alguns dos quais poderiam muito bem vir a ser direcionados para as Lajes.

Precisamos urgentemente de “vender” e entrar nesse mercado com o nosso aeroporto que oferece condições de grande qualidade aos operadores.

Estamos a gravar esta entrevista em que está no porto da PV um navio de cruzeiros. O centro da cidade está cheio de gente. É bonito de se ver. Isto leva-me a perguntar-lhe como olha, no concelho, para a área do Turismo, um sector que tem vindo a crescer em termos globais em toda a Região.

- Há dados muito objetivos e outros que resultam de pura perceção,  que dão conta do crescimento do sector do Turismo no Concelho da Praia da Vitória.

No que aos dados objetivos diz respeito podemos realçar um aumento substancial da oferta de emprego no sector, o aumento do número de alojamentos locais que se tem vindo a verificar de forma continuada, um aumento do número de empresas marítimo-turísticas  e de animação e um igual aumento da quantidade de serviços oferecidos pelas empresas turísticas viradas para o mar e para a natureza de um modo geral. Resumindo, há não só um aumento do número de empresas a operar como um aumento da oferta de serviços por parte das empresas que já operavam. O Número de passageiros embarcados e desembarcados aumentou substancialmente.

Em termos de perceção constato uma maior dinâmica e uma maior preocupação de todos os agentes em olharem para o Turismo de outra forma ou seja há uma maior preocupação coletiva dos praienses em particular e dos terceirenses em geral .

O Turismo é um segmento da economia que acarreta o desafio de transformar os fluxos de emprego gerado tradicionalmente sazonal em emprego consolidado.

O ensino técnico profissional tem sido uma marca do concelho. Como olha para os novos desafios nesta área e como incluí na sua análise o Terceira Tech Island nesse contexto?

Esta aposta tem resultado na fixação no concelho, sobretudo, dos mais novos?

- Sem dúvida! Em especial o projecto  Terceira Tech Island que vai, neste momento, com um ano e pouco de implementação e tem superado todas as expetativas.  Não só tem permitido aos terceirenses em geral e aos praienses em particular terem acesso a uma área altamente competitiva e bem remunerada, tem permitido atrair jovens de outras ilhas que procuram uma carreira nas áreas de programação e de código e permitiu ainda, o que considero muito importante, o regresso de muitos açorianos que estavam emigrados um pouco por toda a parte, à sua terra.

Temos de continuar a potenciar este projeto mais a mais porque já percebemos que as empresas que trabalham na área da programação se fixam onde há programadores, profissionais que escasseiam em todo o mundo.  Essa dinâmica já está criada e a demonstrá-lo realço duas empresas que estão a dar formação na PV e já cerca de dez empresas que se fixaram no concelho que, além de criarem emprego na área da programação, já começaram a criar empregos conexos.

Em suma esta tem sido uma dinâmica muito interessante que já permitiu que dois edifícios que são referência no centro da PV tivessem sido recuperados. Falo da antiga Casa Vitória em cujo primeiro já está instalada uma empresa cotada em bolsa, pergunto quantas cidades dispõem nos seus centros históricos de empresas cotadas em bolsa?, e no seu rés-do-chão estão quase concluídas as obras que irão acolher uma nova empresa. Falo ainda do edifício onde funcionava o antigo BCA  e que esteve fechado mais de três anos que está a sofrer uma intervenção conjunta da autarquia e do Governo Regional com a finalidade de acolher mais empresas.  O “Terceira Tech Island” tem permitido, também, a reabilitação da própria cidade.

É incontornável falarmos da descontaminação…

- Sobre a descontaminação há duas matérias que a Câmara tem vindo a separar:

Por um lado a questão da qualidade da água que é assegurada pela Praia Ambiente. Com base nas análises que são feitas sistematicamente a qualidade da água é excelente. Continuamos a fazer a sua constantemente monitorização e, se algum dia, acontecer alguma coisa de diferente, de pronto será comunicado aos praienses. Não teremos nenhum problema, e essa é uma questão de honra, se essa qualidade vier a ser posta em causa nalguma análise seremos os primeiros a comunicar à população o que estiver a passar-se e o fornecimento seria de pronto interrompido. Para já posso afirmar com toda a certeza, que a qualidade da água é excelente, como referi.

Matéria diferente é a que tem que ver é a da contaminação dos solos cuja limpeza é urgente que seja feita.

Entendemos que a descontaminação tem que ser total  e o processo só deverá ser dado como concluído  quando o conjunto de pareceres e relatórios o comprovarem definitivamente.

Neste momento estão a ser efetuados  trabalhos pelos norte-americanos acompanhados pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil que tem vindo a tornar públicos os seus relatórios. De um ponto de vista objetivo podemos dizer que tem havido um aumento de atividade no processo de descontaminação, tem havido um aumento dos resultados positivos o que significa que o trabalho está a produzir efeito. Naturalmente que a nossa revindicação é de que o processo seja acelerado o mais que for possível até à total descontaminação. A nossa pressão continua a ser desenvolvida nesse sentido não deixando de salvaguardar que as zonas contaminada são específicas e uma ínfima parcela do concelho da PV não devendo, como já se tentou, passar a mensagem de que estamos a falar de todo o concelho. As zonas contaminadas estão identificadas e são, como referi, uma pequeníssima parcela do todo que é o Concelho da Praia.

Iremos continuar a manter em alta a pressão para que o processo não pare e se acelere mas sabemos que são questões que levam tempo a concluir bastando olhar para outros locais do mundo onde as mesmas ocorreram.

Sente que há uma efetiva recuperação social e económica na Praia da Vitória do choque que representou a decisão dos norte-americanos no sentido de um downsizing que ocorreu na mesma altura em que o país e a região enfrentavam as consequências de uma das piores crises de sempre?

- Na verdade o downsizing foi uma crise local no meio de uma crise maior como disse na sua pergunta. Houve um primeiro momento que foi o do impacto económico, ou seja, em entrámos claramente em reta descendente. Batemos no fundo. Depois houve um período em que houve uma estabilização, o que quer dizer que estávamos no pior momento, as pessoas já tinham ficado sem trabalho e as empresas que tiveram que encerrar já o tinham feito. Seguiu-se o período de estagnação, que creio já ter terminado, em que não houve aumento de desemprego mas em que também não houve aumento do mesmo, não existiam novas falências mas não existiam novas empresas. Durante esse tempo sentimos o impacto e não saíamos dele, demorávamos a ver a luz ao “fundo do túnel “ sem conseguirmos saí do” fundo do poço”.  Neste momento já se sente uma recuperação impulsionada pela recuperação que se sente, quer a nível nacional, quer a nível regional, cujos números demonstram um evidente crescimento da economia,  e a Praia da Vitória está, igualmente, a crescer na mesma linha do que está a acontecer em termos maís globais.

Naturalmente que o conjunto de medidas extraordinárias permitiu algum crescimento acima da média, de que, uma vez mais, o Terceira Tech Island, é um excelente exemplo.

Creio, por isto tudo que disse, que começámos, há pouco tempo, a crescer e a descomprimir.

Mas ainda há muito trabalho a fazer porque seria demasiado simplista dizer que o problema está ultrapassado. Não, não está!  Ainda não chegámos a meio caminho, ainda há muitas famílias com desempregados no seu seio sendo verdade que houve uma redução grande nos números do desemprego, mas há ainda, neste campo, um caminho a percorrer.

Volto a repetir que o Turismo trouxe um aumento do emprego mas é essencial que esse emprego se consolide e transforme num emprego efetivo no sentido da criação de riqueza e estabilidade para as pessoas.  Por outro lado podemos verificar que as empresas estão a ficar mais capitalizadas deixando de estar retraídas igualmente pelo aumento do consumo. O aparecimento de novas empresas principalmente no setor do Turismo são uma evidência desta recuperação de que estou a falar. Todo os dias aparecem novas empresas nesta área o que demonstra a dinâmica económica.

Continuamos a ter problemas por exemplo no centro histórico da cidade. Apesar de começarmos a sentir alguma dinâmica nova, por comparação com há quatro ou cinco anos atrás, ainda se está muito longe daquilo que era antes da crise por comparação com o que temos hoje.

Há, como já disse, muito trabalho a fazer sendo que sinto que estamos no rumo certo com o cuidado de não criarmos uma única dependência.  Temos de aprender com o passado e não podemos criar uma nova dinâmica económica assente apenas num único sector.

Sendo certo que o Turismo é um sector que nos está a impulsionar mas seria igualmente muito importante que os sectores da Pesca e da Agricultura pudessem, da mesma forma, desenvolver-se e crescerem a ritmos semelhantes o que, infelizmente, não tem vindo a acontecer. Se esses dois segmentos da economia estivessem a crescer ao ritmo do que se passa com o Turismo aí sim teríamos outra substância e solidez económica. São sectores que criam emprego para milhares de pessoas e que geram uma dinâmica económica muito importante

Não podemos continuar a assistir ao facto da indústria estar a coartar a produção como está neste momento a acontecer na ilha Terceira.

Neste momento os objetivos  económicos quer da Praia da Vitória, quer da ilha Terceira no seu todo, estão relacionados justamente com esta questão que tem que ser resolvida-

Temos de consolidar o sector do Turismo e colocar o sector da Agricultura no mesmo patamar.

 

 

 

 

 

 

 

Pin It

Angra do Heroísmo

Ilha Terceira

Notícias Regionais

Economia

Startups

Outras Notícias

Saúde

Sociedade

Tecnologia